Opinião

Um mundo em mutação

Os espaços de produção estão se superpondo aos espaços de vida


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MARGARETE ARILHA NOVA
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Ainda que todos gostaríamos de escutar outras coisas sobre a vida cotidiana, há um conjunto de reflexões que precisam ser conduzidas pela imprensa, na medida em que não há, de fato, algo que mais ameace a nossa condição de seguir sendo humanidade, que a pandemia da covid-19. Como se escreveu ontem na edição do New York Times, aceitemos, não vamos voltar a ver o mundo pré-pandemia. Como diz Elda Cantu, apesar do avanço da vacinação, mesmo que lento, o cenário é evidente: um desassossego importante resultante de um estresse contínuo, prolongado e imprevisível e a certeza de que não retomaremos nossos cenários anteriores. Nos Estados Unidos, pesquisas de domicílio indicam que crescem, obviamente, a presença do estresse, da ansiedade e da depressão. No entanto, essa também deve ser considerada uma grande oportunidade de mudanças. Uma sugestão de agenda é trazida: adaptar-nos, lutar contra a desigualdade e aceitar a inovação inesperada. No Brasil, os dados, quer seja pelas evidências empíricas que temos quer seja pelas pesquisas que começam a surgir, dizem o mesmo.

As variadas ações de escuta psicanalítica que desenvolvo tem mostrado que há enormes mudanças nos espaços da vida pública e privada, e de suas superposições em territórios específicos, geralmente num lugar anteriormente chamado "casa" ou lar", e onde ocorrem atualmente tarefas de toda ordem. Os espaços de produção estão se superpondo aos espaços da vida reprodutiva, afetiva e de cuidado, e roubando, de certa forma, a cena diária. Mulheres gestoras de umas e de outras ou das duas ao mesmo tempo se deparam com as grandes mudanças a serem implementadas para conseguir resultados nesse ou naquele universo. O cuidado com o universo da casa, o cuidado com os filhos, a ordem produtiva a ser preservada, a dinâmica de reposição da força de trabalho de todos, o cuidado com a não contaminação, a percepção e a sustentabilidade de si mesmas diante dos impasses vividos, os medos da vida e os medos da morte, os lutos a enfrentar, as perdas e as indignações a viver, têm determinado experiências de saturação, de preocupação em ter capacidade física e emocional para gerenciar o presente e o futuro, buscando algum tipo de garantia para as vidas em curso, dando valor a cada uma das vidas sob suas responsabilidades.

Na esfera macrossocial, a condição de interdependência em todas as esferas da vida humana está mais do que evidenciada. Nunca estivemos tão necessitados de ações que são globalmente conectadas e essenciais para nossa sobrevivência física. As vacinas, por exemplo, poderão demorar para chegar até nossas mãos, simplesmente porque na Índia pode haver uma dificuldade operacional nas fábricas produtoras pela falta de mão de obra, adoecida. Medicamentos em geral podem começar a faltar por razões similares ou pela dificuldade de ter em funcionamento empresas que cuidem da rede de transportes de cargas. Ou seja, definitivamente, o nosso sistema de vida entrou em colapso. Isso não quer dizer, necessariamente, que tudo esteja perdido para sempre. O que parece definitivamente mudado é um modo de vida em que, por exemplo, a previsibilidade do trabalho a ser realizado, e o estabelecimento de metas claras poderiam ser suficientes para gerar um mundo eficiente. Hoje já não é mais assim. Os tempos da produção mudaram, a posição dos sujeitos diante do mundo também necessita mudar. E isso, ah, as mudanças, não são tão facilmente assimiláveis entre os sujeitos.

Para realizar mudanças é preciso admitir que o velho mundo não existe mais, é preciso admitir que não basta desejar que o sistema de produção funcione de uma determinada maneira, no tempo e espaço, e que isso ocorrerá. Obviamente, tal cenário cobra uma sobrecarga ao aparelho psíquico, às subjetividades em funcionamento, às inteligências produtivas, aos distintos escalões de gestão da vida produtiva e também reprodutiva.

Não será fácil, mas não nos resta outro caminho a não ser mudar e mudar e mudar.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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