Opinião

A evolução da gestão e a fluidez das verdades

As relações se legitimam como quânticas e transcendentais


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A forma como fazemos negócios evolui com o tempo. Descobertas científicas, inovações tecnológicas, guerras, questões ambientais, sociais, de saúde, espirituais, política, todas elas influenciam a forma como trocamos bens e como o dinheiro circula na sociedade. Em 1500, no Mercantilismo, os ofícios eram responsáveis por suprir as necessidades das comunidades. Ou seja, o mesmo artesão fazia toda a confecção de um sapato, desde a escolha do couro até lustrar o sapato pronto, incluindo a venda e a entrega. Por volta de 1760, com a primeira revolução industrial e um monte de questões políticas e sociais, se fortalece o capitalismo, sistema focado no acúmulo de riquezas por meio das propriedades privadas, quase em oposição ao fortalecimento do Estado comum ao Mercantilismo. Acompanha uma ressignificação da força de trabalho, que passa a ser assalariada, ou seja, aquele cara que antes produzia o sapato, agora passa a vender seu tempo e não mais o fruto do seu tempo.

Com a segunda revolução industrial no início do século XIX, Ford dá as cartas do jogo e o modelo de gestão adotado é o Fordismo, o controle do tempo das atividades dos trabalhadores - até a ida ao banheiro era contabilizada - com foco absoluto na eficiência: reduzir o custo para aumentar o lucro. Se institucionalizam as relações bilaterais e lineares representando uma visão mecanicista do mundo. Na terceira revolução industrial, o mundo colapsado pela segunda guerra mundial demandou um modelo de gestão estratégica, baseado na organização militar, piramidal e hierárquica, em que a tomada de decisão é centralizada e, com o surgimento e uso dos computadores, os cálculos e o controle dos funcionários passam a ser ainda mais acurados. É a consolidação de um sistema capitalista exploratório, e também o início da massificação da consciência ambiental e da diferença gritante de renda. Os resultados fora da produção começam a ser notados, dando indícios da circularidade do mundo.

Em meados de 1990, o que vem para transformar consideravelmente todo esse olhar é a internet. O ambiente em rede extrapolado para muito além do computador resultou em consequências exponenciais. A lógica cibernética embutida dentro das máquinas industriais gerou espaço para o que estamos vivenciando nesse momento, a quarta revolução industrial, tema tão discutido nas rodinhas de inovação. As máquinas se comunicam entre si e chegam a tomar decisões, o elo fraco não é mais humano, é muito mais uma questão de integração de sistemas. Fora das paredes dos galpões industriais, desde a queda do muro de Berlim e a abertura de mercados, o mundo passa a ser muito mais plano e cria-se uma denominação de cadeia global de valor. O que isso significa? O mesmo sapato que lá no início do século XV era feito por um único artesão, ou que no século XIX era feito por uma mesma fábrica, ou que no século XX era feito (na sua maioria) por um conjunto de indústrias locais, hoje é feito por inúmeras fábricas ao redor do mundo todo. O modelo de gestão precisou se adaptar, foi preciso incluir a complexidade de uma rede de fornecedores e consumidores globais (com línguas, leis, horários diferentes), ainda potencializada pela exponencialidade da tecnologia vinda das startups.

Cria-se no início do século XXI, o modelo de gestão chamado startup way, cuja ferramenta mais conhecida é o Business Model Canvas, que substituiu o arraigado plano de negócios da gestão estratégica e institucionaliza a visão sistêmica. Hoje 97% do dinheiro que circula no mundo é proveniente de especulação, ou seja não tem lastro; nos últimos anos estamos em processos repetitivos de pandemias globais (covid, obesidade, câncer, diabetes), em 2010 morreram mais pessoas de suicídio do que homicídio, tragédias ambientais, crises financeiras. A incerteza escancara nossas antigas verdades, nossas antigas constâncias. Nos últimos 30 anos, com a evolução da ciência descobrimos que o "real" que tentamos controlar loucamente não é bem assim. Os cientistas descobriram que o sólido é na verdade feito de vazio, que não há linguagem para explicar a matemática atômica, que o bater das asas de uma borboleta pode gerar um tornado. Cria-se uma nova forma de gestão que legitima sentimentos, incertezas, disrupções improgramáveis. Para as organizações mais alinhadas com o mundo em que vivemos, as relações se legitimam como quânticas e transcendentais; e o modelo de gestão acolhe e absorve essa realidade.

ELISA CARLOS. Em constante atualização, é empreendedora, engenheira, cozinheira, mãe Waldorf da Nina e da Gabi


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