Opinião

O jogo do contente

O ano da pandemia deixou os brasileiros mais infelizes


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Os americanos costumam exercer a futurologia, elencando as megatendências para as décadas e também são especialistas em ranquear os mais diversos assuntos. Jeffrey Sachs, economista diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia, é o responsável pelo ranking de felicidade do WHR, um grupo de estudo do Centro de Pesquisa de Bem-Estar da Universidade de Oxford e pelo Programa de Bem-estar da London School of Economics and Political Science. A apuração relativa a 2020 mostrou que o Brasil ficou em 41º lugar, enquanto que em 2019 estava em 29º. Isso significa que o ano da pandemia deixou os brasileiros mais infelizes.

É verdade? Acho que nenhuma pessoa em pleno uso da razão possa estar inteiramente feliz no Brasil. Encaminhamo-nos para quatrocentas mil mortes por covid. O país já não estava essas coisas em termos de ética, moralidade e economia. Precisou vir uma crise sanitária para mostrar que é muito difícil fazer o "jogo do contente", que nem Poliana conseguiria encenar neste 2021.

Enquanto isso, a Finlândia continua em primeiro lugar, segunda pela Islândia, Dinamarca, Suíça, Holanda, Suécia, Alemanha, Noruega, Nova Zelândia e Áustria.

Esse índice de "felicidade" é algo de complexa mensuração. Mas os pesquisadores avaliaram os riscos de infecção, as políticas públicas adotadas para debelar a pandemia, a liderança dos governantes, a confiabilidade no governo.

A galopante letalidade da covid-19 no Brasil explica o mal-estar da população, aturdida ante a falta de coordenação central, com a guerra de narrativas, com a politização das vacinas, com os gabinetes de ódio destilando malquerença, ofensas, injúrias e idiotices infinitas.

A falsa disputa entre saúde e economia foi um dos fatores que justificaram a queda brasileira na sensação de estar num país confiável, com governantes confiáveis, com futuro no qual se pudesse acreditar cegamente.

Os países que priorizaram a ciência foram bem avaliados por seus habitantes. Foram os que fizeram de forma rápida a testagem, o rastreamento, o isolamento, a transparência nas informações e uma vacinação em massa.

Contribuiu para o rebaixamento brasileiro, o impacto causado pelas inúmeras crises reais e as geradas por posições ideológicas, quais o maltrato em relação à natureza, quando o mundo todo acordou para o aquecimento global e até o capitalismo selvagem sabe que o futuro será sustentável, ou não haverá futuro.

Uma política rasteira, mais preocupada com os interesses personalíssimos dos "profissionais" que se perpetuam nos cargos eletivos, não anima o brasileiro a celebrar a vida. É inimaginável que o celeiro do mundo tenha seus nacionais passando fome. Gente se alimentando com as ricas sobras do lixo, no Brasil do desperdício. Os invisíveis vieram à tona, como zumbis, mostrando a realidade nacional: a mais iníqua distribuição de renda, aliada à mais pesada carga tributária do planeta.

É difícil explicar como uma das dez maiores economias do mundo se aproxima de nações como o Quênia, Egito, Namíbia, Mianmar, Benin, Camboja, Índia, Jordânia, Tanzânia e Zimbábue, que estão no final do ranking da felicidade.

A situação seria pior não houvesse tanta gente conformada, que continua a crer, convicta e ingenuamente, que todo e qualquer sofrimento neste plano significará infindas recompensas na transcendência.

Não foi isso o que Jesus pregou. Ele disse que seu reino não era aqui, mas que para entrar nele bastariam duas condutas: amar ao Senhor Deus com todas as forças da alma e ao próximo como a si mesmo.

Essa "lei de ouro" do amor ao próximo foi convertida pelo constituinte brasileiro em princípio jurídico, pois a Constituição de 5 de outubro de 1988 afirma em seu preâmbulo que a República Federativa do Brasil quer edificar uma pátria justa, fraterna e solidária.

Está muito longe disso. Há esforços isolados. Mas o governo tem de fazer sua parte. Se não fizer, está descumprindo a Constituição e empurrando o Brasil para o final dos rankings que aferem como é que está a saúde mental, a infinita paciência e o grau de resignação dos brasileiros.

JOSÉ RENATO NALINI

é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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