Opinião

A nossa história não começa com a escravidão

A história negra e trajetória é muito, mas muito anterior à escravidão


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ARTICULISTA EGINALDO ONÓRIO
Crédito: .

Frase do professor Carlos Machado que merece reflexão e evitar a perpetuação da omissão a respeito dos informes, da importância, do legado e muito mais de origem africana.

Não se admite mais a ideia de omitir a história sob o descabido medo da verdade.

A discriminação mantém nosso país em níveis mais baixos, pois se conferissem educação em igualdade de condições, seguramente seríamos a maior potência do planeta. Já mencionei aqui nesse espaço que, considerando os processos de exclusão racial, é o mesmo que engessar metade do corpo e querer andar! No máximo se arrastará. Retire esse gesso e veja o resultado! Obvio né?

É passada da hora de "glamourizar" a escravidão e, nesse sentido, encontramos na Revista de Psicologia da Unesp (vol.14 n. 1, Assis, janeiro.2015), o artigo intitulado "A produção de Dante Moreira Leite (1917-1976) na compreensão das relações étnico-raciais no Brasil" o trecho :

"Freyre tinha acesso a uma ampla documentação da violência sofrida por negro/as escravizado/as, mas continuava a sustentar que, de modo geral, suas condições de vida na metade do século XIX eram melhores do que a de operários/as europeus da mesma época. Suas interpretações também eram contraditórias e partia, unicamente do ponto de vista da classe dominante, aproximando o autor das forças políticas mais conservadoras. A obra de Freyre revela uma profunda ternura pelo negro. Mas pelo negro escravo, aquele que conhecia sua posição - como moleque da casa grande, como o saco de pancadas do menino rico, como cozinheira, como ama-de-leite ou mucama da senhora moça. Nesses casos, o branco realmente não tinha preconceito contra o negro, podia até estimá-lo(...) E nada revela melhor esse preconceito contra o negro - ou seria melhor dizer essa atitude escravocrata - do que as ideias de Gilberto Freyre(...) Para ele, o negro vivia melhor sob a escravidão do que no regime de liberdade do trabalho (Leite, 1969/2007, p. 372)".

Não bastando toda a violência perpetrada, há corrente muito forte sustentando essa mesma linha de raciocínio, quando, na real, deveria ser o contrário, mostrando, por exemplo, a origem e importância de centenas de palavras africanas, tais como: angu, babá, cachimbo, dengo, engabelar, empacar, farofa, gandaia, implicar, lambada, maluco, nenê, odara, pamonha, quenga, requenguela, samba, tagarela, urucubaca, vatapá, xará, zoeira e tantas outras importantes contribuições na música, culinária, tecnologia, esportes.

Insisto em afirmar que a melhor solução para diminuir essa brutal diferença e maldade contra o ser humano é a implementação da Lei n. 10.639/03, que obriga o ensino da história da África, afro-brasileira e indígena, por meio da qual se provará os grandes feitos, tais como domínio da matemática, física, metalurgia, mineralogia, astrologia, medicina, engenharia, arquitetura, culinária, tecelagem, agricultura, pecuária, navegação,... sendo que muito de tudo isso foi apropriado em grande quantidade pelos gregos.

A história negra e trajetória é muito, mas muito anterior à escravidão, pois milhares anos já cuidavam da matemática, chegando a construir há mais de 2.000 anos uma calculadora denominada ishango. Na religião dominavam o sistema binário e as combinações em múltiplos de 16. O professor que inaugura essa matéria apurou 186 poderosos reinados africanos; a tecnologia do vidro, iluminação, a escrita e muito mais seguramente bem antes da escravidão e, com a implementação da mencionada lei, a verdade surgirá, dentre elas o fenômeno Imhotep (2770 - 2670 a.C) o verdadeiro Pai da Medicina, que fundou uma escola de medicina em Memphis. Diagnosticou e tratou mais de 200 doenças (15 do abdômen; 11 da bexiga; 10 do reto; 29 dos olhos, 18 da pele, cabelos, unhas, língua) tinha conhecimentos de anatomia, psique e farmacologia.

O estudo confirmará também a presença negra em todos os demais continentes, a exemplo do grande samurai Tamura Maro, dando origem ao provérbio japonês: "Para um samurai ser corajoso, ele deve ter um pouco de sangue preto."

EGINALDO HONÓRIO é advogado


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