Opinião

Muros de condomínios não têm cidadania

Não temos recursos de proteção, além daqueles usados na idade média?


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EDUARDO PEREIRA ARQUITETO
Crédito: divulgação

A pé, fazendo todo o dia o percurso que preciso para me manter em ordem por sete quilômetros pela cidade, é impossível não notar as inconsistências das interferências nas ruas e estradas, nos ambientes alterados em nome da proteção dos bens caros, como tênis, celulares, tvs, laptops e todos objetos de desejos, especialmente os do closet, marcados com as emblemáticas e chiques marcas de status de todos os gêneros. São nesses condomínios que as casas e suas vizinhas viraram um cofre inexpugnável. Protegidas de muros altos se tornam cidades invisíveis, de pessoas que se prendem dentro desse feudo contemporâneo.

Protegendo esses interesses, quem andar a pé não verá nada da possível paisagem oculta atrás dessas altas paredes que protegem os pertences de valor, ocultos nas casas de grandes projetos apertados nos terrenos de 500 metros.

A ironia é uma provocação para uma pergunta simples, será que precisa de tanta blindagem? Para esses acúmulos de capitais tão baratos?

Será que em 2021 construímos feudos para separar em guetos uma classe de pessoas chiques, que me enquadro, porque não temos recursos de proteção, além daqueles usados na idade média?

Logo.... Vamos fazer fossos de defesa junto aos novos empreendimentos como forma de atração para venda, com espécies de peixes como o bagre e outros que já denominaram a cidade criados ali.

Contei, são quilômetros de altas paredes no percurso para circundar uma área que foi ambiental e bela que foi cegada, esse caminho, que na pandemia podemos fazer com máscaras e sem aglomeração, revelou um estado de coisas paradoxal ...

Os nossos planos urbanísticos eram rígidos quanto as dimensões da quadra dos bairros que, com mais de 100 metros, era necessária a viela pra que não acontecesse esse grande obstáculo de percurso.

O que agora é instituído é um produto altamente valorizado e desejado, em função da pandemia traz para a cidade grandes áreas intransponíveis e muradas.... As que você não vê por conta de se espalharem internamente em divisas com outros conjuntos não incomodam.

Mas a substituição de matas, jardins e a vista das casas, que precisa necessariamente oferecer para a convivência cidadã, foi interrompida. Essas muralhas contrariam uma importante exigência das fachadas permeáveis que nosso código de obras exige para o fechamento das casas, ou seja, que não impeça a vista da casa, nas casas de rua como todas deveriam ser.

Lugares vazios, que são excepcionais como paisagem, precisam ser salvos desse produto de mercado. Com um olhar atento e técnico, os profissionais do meio ambiente e os de arquitetura precisam conhecê-los, identificá-los e propor usos adequados para que não se percam esses valores.

Nem mesmo na Colônia, que estudei tanto (publiquei meu livro na primeira vez há 37 anos), não serviu para que naquela região fosse preservado o ambiente e as características daquele histórico Núcleo Colonial de 1886, com suas poucas casas e extensos vazios e está à mercê de um Plano Diretor que não viu e sequer identificou no mapa a casa em tombamento de Plinio Nalini, que a conserva como há 150 anos.

Cabe aqui ainda avisar que passou despercebido o Sobrado Guarisi, que era protegido pelo Compac, mas nessa pandemia sumiu.... da paisagem.

Sem multas e sem fiscalização, sem a figura do tombamento, sem sequer ter no código de obras a palavra restauração, estaremos com a esperança muito reduzida da conservação desses edifícios para as próximas gerações. Uma postura de desinteresse e grande pode-se perceber no código de obras. Em revisão, mesmo com uma evolução bastante providencial, não tinha posturas para as obras em edifícios e lugares tombados. O Compac contribuiu com dados essenciais para que sejam observados, que precisam virar lei. Essas instruções e denominações de serviços nessa área de intervenção nos bens culturais e nas áreas envoltórias têm que estar presente nos protocolos de obras nas placas e no cumprimento das posturas de salvaguarda.

O Compac, com seus conselheiros renovados por um time jovem que representa a sociedade civil, vai dar um salto de qualidade para a arquitetura e urbanismo que queremos. Que tenham êxito e que possamos colaborar com todos vocês. Parabéns, êxito à nova gestão!

EDUARDO CARLOS PEREIRA

é arquiteto e urbanista


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