Opinião

Não se sinta um(a) trouxa

O homem nasce bom, é a sociedade que o corrompe


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Já parou para pensar que a nossa espécie é uma das mais frágeis que existe entre os mamíferos no reino animal. Não somos os mais velozes. Não somos os mais fortes. Nem somos os mais resistentes. Na hierarquia da lei da selva, seríamos meros vassalos de outros tantos animais infinitamente mais poderosos que nós.

Se você colocar um bebe recém-nascido ao lado de um potro igualmente estreante da vida, verá que um já saberá andar e procurar por comida e o outro, chorará até morrer de fome ou dentro do estômago de um predador.

Isso significa que sozinhos seríamos incapazes de sobreviver na natureza. Mesmo adultos, pela nossa fragilidade física, precisamos de outros para complementar o que nos falta. Se você é baixinho, precisará da ajuda de alguém alto para que ele possa pegar as frutas nas copas das árvores enquanto você o ajuda pegando os cogumelos dentro de buracos pequenos demais para as mãos de uma pessoa grande. Um baixinho e um altão, juntos conseguem obter uma refeição rica e diversificada enquanto sozinhos, não.

Como nascemos com biotipos diferentes, uma equipe de seres humanos com diferentes habilidades tem muito mais chances de sobreviver. Portanto, isso justifica duas falas de Jean-Jacques Rousseau: "a cooperação é a principal característica da nossa espécie" e "o homem nasce bom, é a sociedade que o corrompe".

Nós nascemos com esse sentimento de cooperação, que é um sentimento bom. Precisamos da cooperação para sobreviver, logo, ser cooperativo, ou seja, ser bom, é inerente à nossa espécie. Nessa lógica, nós nascemos bons.

Mas se somos uma espécie que naturalmente coopera um com o outro, o que foi que aconteceu que algumas pessoas pararam de cooperar? Por que as pessoas não estão cooperando com as outras para diminuir a transmissão do vírus?

Aqui você pode colocar a conta nos sistemas sociais que foram surgindo com a o passar do tempo. E isso começou com a descoberta e desenvolvimento da agricultura.

O grupo A planta grãos que são suficientes para alimentá-lo. O grupo B, que não sabe ainda plantar nada se aproxima. O grupo A teme por sua plantação, uma vez que se o grupo B querer comer o que foi plantado, não terá comida suficiente para todos. Para proteger sua plantação, o grupo A cerca o terreno, delimitando aquele local como sua propriedade. Assim, começam a surgir os sentimentos sociais, como por exemplo: a ganância do grupo A; e a inveja do grupo B.

A propriedade privada colocou humanos contra outros humanos. Jogou nosso senso de cooperação na lata do lixo da evolução. Quando você é um humano socialmente vencedor, ou seja, que possui um acúmulo de propriedade privada, você não precisa de ajuda de ninguém. Se precisar, você paga por isso. A cooperação só é útil para quem, ao contrário, não tem esse poder de compra.

Ainda vivemos numa selva, diferente, mas ainda uma selva. A necessidade da cooperação que antes te acompanhava do berço à cova, passa a ser apenas uma escolha. A bondade humana começou a morrer no dia em que a primeira cerca foi construída.

Quando eu vi muitos amigos meus, parentes e pessoas que eu nutria certa admiração ligando o "f*da-se" para a pandemia e literalmente colocando a vida de outras pessoas em risco, isso me chateou. Eu sei que você quer se divertir, mas quando sua diversão coloca outras pessoas em perigo, você precisa rever isso. E por quê? Por causa da principal característica da nossa espécie: a cooperação.

Quando você nega cooperar você está negando sua condição de ser humano. Essa quarentena era a chance que tínhamos de cooperar uns com os outros. E essa cooperação nos levaria para outro caminho. Um caminho diferente do que vivemos até aqui. Sei lá… talvez eu esteja divagando demais… Talvez seja a hora de aceitar que a nossa espécie perdeu. Talvez seja a hora de aceitar que a cooperação não seja mais a principal característica do ser humano.

P.s.: E antes que eu me esqueça, um recado para você que está cooperando com as medidas de isolamento social para conter o vírus. Não se sinta um(a) trouxa. Sinta-se um Homo sapiens que deu certo.

Conhecimento é Conquista!

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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