Opinião

Tiradentes, por Cecília Meireles

Que vens tu fazer, Alferes,/com tuas loucas doutrinas?


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Em seu livro de poemas "Romanceiro da Inconfidência", publicado em 1953, Cecília Meireles, ao tratar da revolta ocorrida nas Minas Gerais do século 18, fala evidentemente do Tiradentes. O alferes Joaquim José da Silva Xavier, único sentenciado à morte cuja execução foi consumada, participou ativamente do episódio. Quando acusado, assumiu sua responsabilidade e pagou o pato. No livro de Meireles, ele aparece em mais de um romance (designação ibérica e medieval para poema narrativo). O livro apresenta cerca de noventa poemas, a maioria numerados (no original, em algarismos romanos; opto por transcrevê-los em arábico). O Tiradentes surge ainda menino no "Romance 12 ou De Nossa Senhora da Ajuda". São crianças orando numa capela: "Nossa Senhora da Ajuda/Entre os meninos que estão/rezando aqui na capela,/um vai ser levado à forca,/com baraço e com pregão!/ Salvai-o, Senhora/com o vosso poder,/do triste destino/que vai padecer!(...) Sete crianças se levantam,/Todas sete estão de pé,/fitando a Santa formosa (...)/No meio, Joaquim José./Agora são tempos de ouro,/Os de sangue vêm depois./Vêm algemas, vêm sentenças,/vêm cordas e cadafalsos (...)/Lá vai um menino/entre seis irmãos./Senhora da Ajuda,/pelo vosso nome,/estendei-lhe as mãos!".

O herói ressurge no "Romance 27 ou Do animoso alferes": "Pelo monte claro,/pela selva agreste/ (...) cavalga, cavalga/o animoso Alferes./(...) Por aqui, descansa;/ali, se despede,/que por toda parte/o povo o conhece./Adeuses e adeuses,/sinceros e alegres (...)/ Águas de ouro puro/seu cavalo bebe./Entre sede e espuma,/os diamantes fervem.../(A terra tão rica/e - ó almas inertes! --/o povo tão pobre.../Ninguém que proteste!/Se fossem como ele,/a alto sonho entregue!)". Já é o idealista desejando destino melhor para sua terra e gente. Mas vai ser dedurado e entregue às autoridades: "(...) De olhos espantados,/do rosilho desce,/ Terra de lagoas/onde a água apodrece./Janelas, esquinas,/escadas... - parece/que há sombras que o espreitam,/que há sombras que o seguem.../Falas sem sentido/acaso repete,/pois sente, pois sabe/que já se acha entregue (...)". No poema "33 ou Do cigano que viu chegar o Alferes", sobrevém a profecia: "Não vale muito o rosilho:/mas o homem que vem montado,/embora venha sorrindo,/traz sinal de desgraçado./Parece vir perseguido,/sem que se veja soldado;/Deixou marcas no caminho/como de homem algemado./Fala e pensa como um vivo,/mas deve estar condenado./tem qualquer coisa no juízo,/Mas sem ser um desvairado (...)". Pouco adiante, no romance 35, o cerco se fecha: "Que vens tu fazer, Alferes,/com tuas loucas doutrinas?/Todos querem liberdade,/mas quem por ela trabalha?". No poema 56, preso o Tiradentes, seus parcos bens são leiloados: cavalo, sela, ferramentas: "(...) Arrematai essas horas/guardadas pelos ponteiros,/arrancadas ao seu dono,/rogando consumação!/Interrogai-as, agora/que os reis tremem nos seus tronos,/e os antigos prisioneiros/de cinza e de glória são". Morre pobre, mas deixa legado imenso. No 61, apresentam-se os muitos "domingos" na vida do Tiradentes: seu avô materno e seu pai assim se chamavam; ele foi preso num domingo, no Rio de Janeiro, quando estava abrigado na casa de um amigo de mesmo nome, e foi enforcado no campo de São Domingos.

O romance "63 ou do silêncio do Alferes" mostra a indiferença misturada à chacota de tantos e o sumiço dos que diziam apoiá-lo: "'Vou trabalhar para todos!'/-- disse a voz no alto da estrada./Mas o eco andava tão longe!/E os homens, que estavam perto,/não repercutiam nada.../'Bebamos, pois, ao futuro!'/exclamara na pousada./Todos beberam com ele,/todos estavam de acordo./E agora não sabem nada".

A autora tinha dúvidas de como tratar seus personagens. Em 1946, quando gestava o livro, em carta ao colega português Armando Côrtes-Rodrigues, ela escreve: "Oh, Deus, dai-me forças para esta tremenda aventura que se chama fazer uma peça histórica que não seja cretina! a fim de que meus queridos mártires não sejam martirizados duas vezes!". Longe de torturá-los, esses versos estão mais para mergulhá-los na beleza.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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