Opinião

Almas ingênuas

A cidade cresceu, se desenvolveu e é uma das mais importantes do Brasil


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

A Jundiaí de minha infância era muito diferente. Não há como deixar de ter saudades dela. Pode ser a visão simplista de quem viveu num microcosmo bem definido e não tinha conhecimento da dimensão das coisas, a não ser pelas leituras. Que começaram assim que foi alfabetizado e prosseguem, de forma voraz, até os dias de hoje.

Mas era uma cidade em que todos se conheciam. Andava-se muito a pé. O automóvel foi uma invenção recente para a população comum. Tanto que as placas dos veículos tinham poucos números. Só depois de Juscelino foi que a indústria automobilística floresceu.

Os telefones também custaram a chegar. As ligações eram feitas num posto telefônico na esquina da Barão de Jundiaí com a Siqueira de Morais. Pedia-se uma ligação e aguardava-se o contato, que era reservado a uma das várias cabines ali instaladas. Muito pouca gente possuía telefone em casa. Eles tinham quatro números apenas. O nosso era 4854. Ainda me lembro de outros: 4558, 5163, 5965, 5382, aqueles que discávamos com frequência.

Não se conseguia percorrer um quarteirão, sem encontrar algum conhecido. Parava-se para conversar. Podia-se andar pelas ruas, a qualquer hora, sem perigo. Era comum, à saída de bailes no Clube Jundiaiense, ficar conversando antes de ir para casa, sentado nos degraus de uma casa comercial. Ouvia-se, ao longe, o apito do guarda noturno.

E a cidade contava com algumas figuras populares. Uma delas era a Gilda. Descendia de escravos. Andava sempre com uma cesta e usava uma trança com uma fita verde. Era crédula e vivia apaixonada pelo Dr. Francisco de Queiroz Telles, grande figura da fidalguia da terra. Amigos dele a incentivavam a cultivar essa afeição, e ela continuava a mandar mensagens, a acreditar que teria futuro. Tudo feito com espírito jocoso, mas sem humilhação.

Outra figura era a Brilhanta. Não se sabe exatamente o motivo, ela comparecia a todos os velórios. Eles se realizavam nas residências. O velório municipal foi obra de Walmor Barbosa Martins. Havia uma revolução na casa de quem falecia. Arrastavam-se móveis, abria-se um espaço para o caixão, forravam-se as paredes com tecido preto, assim como à porta da casa se afixava pesada cortina da mesma cor, mais uma cruz amarela.

A primeira pessoa a chegar era a Brilhanta. Vestida de negro, com mantilha, era uma figura que as crianças associavam à morte. Só queria rezar pelos defuntos.

Havia também o "Susto", um jovem de porte avantajado, que estudara com a finalidade de ser detetive. Estava sempre acompanhado por sua mãe. O próprio apelido revelava certo preconceito. Por que "Susto"?

De quando em vez passava nas ruas a "Maria dos Pacotes". Carregada de caixas, de sacos, de pacotes mesmo. Os menores a temiam. Mas era inofensiva. Não fazia mal a ninguém. Talvez antecipasse a reciclagem, hoje tão importante para coibir a cultura do desperdício, uma incrível característica brasileira.

O que me vem à mente é comparar o que existia naquelas décadas de cinquenta e sessenta do século passado e o mundo rumo à terceira década do século 21. Onde a camaradagem entre as pessoas? Entra-se em elevador e não se recebe um "bom dia"! Esbarra-se - ou pelo menos esbarrava-se, antes da pandemia - em alguém e não se pede - ou se pedia - desculpa.

Onde as almas ingênuas de figuras que habitavam a nossa fantasia e que cederam lugar a excluídos de toda a ordem? Nosso preconceito sempre acha que o desvalido ou é um viciado, ou é um bêbado, ou é as duas coisas ao mesmo tempo.

Dir-se-á que é o progresso, que os tempos são outros, que a cidade cresceu, se desenvolveu e é uma das mais importantes do Brasil. Pode até ser e quero que seja. Mas onde foi a singeleza dos "papudos", o orgulho com que cantavam "Ó Terra querida, Jundiaí, teus filhos amantes, são de ti...".

Ganhamos mesmo? Crescemos moralmente, espiritualmente, somos mais humanos e mais felizes?

"Ama com fé e orgulho, a terra em que nasceste!". Isso pode ser repetido para a infância que tem um horizonte muito incerto pela frente, se continuar o desapreço pelos humanos, pela natureza e pela transcendência. Ah! A Jundiaí de minha infância!

JOSÉ RENATO NALINI

é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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