Opinião

Escola, filhos, lockdown pra quê?

As escolas privadas se tornaram locais de venda de conteúdo pedagógico


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Escola, pandemia e lockdown são nomes que não combinam. Escola, flexibilização de fase e liberalismo são nomes que combinam mais, atualmente.

Há anos se percebe uma mudança deletéria na relação das escolas com a realidade. Isso mesmo, você leu corretamente, a relação das escolas com a realidade.

Escolas deveriam ser centros de formação, aprendizagem, socialização, desenvolvimento psicossocial e de integração entre alunos, instituições e famílias. As relações de cooperação tão importantes neste contexto para as crianças vêm há muitos anos se diluindo em uma trágica cena de cobranças e desmandos envolvendo todas as partes.

No ensino superior vendemos carreiras para os brasileiros que não tiveram acesso a uma educação básica de qualidade, tapando um buraco gigantesco causado pela política de incapacitação dos governos brasileiros dos últimos quinhentos anos. Pessoas que não tem acesso a conhecimento, a acolhimento social e desenvolvimento do pensamento crítico são alvos fáceis de manipulação política. Isto está colocado no Brasil com uma claridade inquestionável. Somos rebanho e ponto.

No ensino infantil e fundamental, o público e o privado se distanciam em anos-luz. São universos diferentes, retas paralelas que nunca se encontram, com diferenças gritantes e desoladoras. Para que todos possamos ter noção dos mundos paralelos onde se encontram nossos estudantes, as escolas públicas estiveram fechadas por meses, poucas puderam oferecer aulas remotas por motivos muito óbvios de falta de estrutura e outras abriram para oferecer a merenda, bem precioso a muitas das famílias atendidas. Essas escolas estão na mão do governo, o mesmo que não quer seres pensantes andando pelas ruas, o mesmo que ano após ano não investe em educação e que do dia para a noite decidiu que a pandemia não deveria impedir que estudantes e professores voltassem às aulas presencialmente.

Sem embargo, nesta pandemia as escolas privadas e as famílias que por elas podem pagar, tiveram um protagonismo difícil de ser digerido, pois foram as primeiras a ter condições de uma excelente adaptação ao ensino remoto e as que mais reclamaram e pressionaram os governos para a reabertura a todo custo, partindo de um discurso que, quando bem analisado, podemos perceber o quanto é falacioso e dirigido por uma lógica de mercado e não por uma postura verdadeiramente educacional ou humanista.

Se tínhamos alguma dúvida de que as escolas do setor privado tinham se tornado locais de venda de conteúdo pedagógico, na pandemia nossas dúvidas se fizeram certezas. Se duvidávamos de que as famílias não sabem mais dar conta das crianças que põe no mundo, já não as temos mais. As escolas se tornaram incapazes de conter a turba de pais enlouquecidos, pais que tiveram filhos para perceberem que deixá-los na escola era mais apropriado para a vida moderna. Há muito sabemos que as crianças desta faixa socioeconômica participam de um jogo de "batata quente" entre pais e escolas, onde elas são as batatas. Na quarentena a desculpa usada era uma coisa que ninguém sabe muito bem em que consiste, a saúde mental das crianças. As escolas têm que reabrir porque as crianças estão em sofrimento. O detalhe que se omite neste discurso liberal é o de que o sofrimento só acabará quando pararem de morrer pessoas e não com as escolas reabertas. O sofrimento das crianças que é real, poderia ser minimamente contornado no ambiente familiar.

O setor privado educacional, assim como todo o comércio, precisa reabrir porque eles não receberam nenhum apoio dos governos que insistem em dizer que o Brasil é um país pobre, que nunca teria condições de bancar um lockdown. As escolas reabriram porque pais estavam cancelando matrículas e porque estão fazendo cobranças completamente absurdas para diretores e coordenadores.

Todos, absolutamente todos, fizeram questão de colocar num canto muito remoto de suas consciências que crianças contraem e transmitem covid, que não há estudos finalizados para as vacinas em menores de dezoito anos e que professores não estão vacinados.

Concluo, em tom amargo, que nem a morte de quatro mil pessoas em 24 horas nos fez repensar a realidade que construímos.

Reabertura sem vacina pra quê?

ANA CLÁUDIA FOSSEN

é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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