Opinião

Dá para ter sossego?


JOSÉ RENATO NALINI
Crédito: Reprodução/Internet

Confesso que sou amigo da ciência e nego o negacionismo. Mas a fase não está favorável. Depois das duas doses de vacina, acreditei que estaria imune, assim que ultrapassado o prazo razoável para a formação de anticorpos.

Eis senão quando começo a receber memes dizendo que a reinfecção é muito normal, ainda depois das duas doses. E notícias de mortes com a observação de que o falecido havia sido vacinado.

Os artigos de Fernando Reinach não me deixam mais tranquilo. Primeiro, ele escreveu a respeito da insuficiência da vacinação para a certeza de que a covid-19 estaria distante. Em seguida, fala que o futuro dos sobreviventes será uma odisseia. Menciona um estudo que sustenta que 33% dos sobreviventes à pandemia serão diagnosticados com patologias neurológicas e psiquiátricas poucos meses depois de receberem alta.

É um estudo que observou os prontuários de 236.379 pessoas nos Estados Unidos. Se isso valer para o Brasil, onde mais de treze milhões foram diagnosticados, é porque infectados foram muitos mais. Cerca de quarenta milhões.

Comenta Reinach que a pesquisa usou base de dados da TriNetX, com os prontuários eletrônicos de 81 milhões de pacientes. Dentre esses, detectaram aqueles que tiveram diagnóstico positivo de covid depois de 20 de janeiro de 2020 e que ainda estavam vivos em 13 de dezembro. Apurou-se que 33,62% dos pacientes diagnosticados com covid apresentaram depois um quadro de doença neurológica ou psiquiátrica.

Os dados assustam: “A chance de uma pessoa que teve covid é 3,75 vezes maior de ter uma hemorragia intracraniana, 1,82 vezes maior de ter um derrame isquêmico, 7,76 vezes maior de ter uma doença neuromuscular, 2,77 vezes de ter uma doença psicótica e 1,55 vez de ter crises de ansiedade. A lista dos possíveis diagnósticos inclui 22 doenças”.

É importante observar que a pesquisa apenas analisou patologias psiquiátricas e neurológicas. Enquanto se aferiam os dados, verificou-se, por exemplo, que o risco de doenças neuromusculares aumenta 7,76 vezes em pacientes não internados, para 11,53 nos que tiveram de ser internados.

Ouve-se falar em sequelas que vão desde a perda da memória, à permanência de prejuízos no gosto e olfato. Irritações na pele. Dores musculares. Sei de pacientes que tiveram de reaprender a falar, com o auxílio de fonoaudiólogos, a caminhar, com a ajuda de fisioterapeutas, sem falar no próprio custo emocional das famílias que têm de conviver com essa nova realidade. É esse o “novo normal” que se anunciou no início da peste?

Dá para acreditar que vamos um dia ficar livres desse pesadelo?

A sensação é a de que a covid-19 não foi apenas uma pandemia como outras que já ocorreram no percurso que a humanidade faz por este planeta. É algo muito mais sério. É uma advertência para os insanos que continuam a maltratar o ambiente, a não se importar com a poluição, a produzir resíduos sólidos – inclusive venenosos – sem qualquer controle.

A peste veio para mostrar que a frágil e efêmera permanência de cada humano nesta sofrida Terra é cada vez mais ameaçada por infortúnios sobre os quais não temos qualquer controle.

Como seria confortador acreditar que, a partir dessa constatação, a humanidade se convertesse para aquele ideal da solidariedade, da comiseração e da fraternidade. Fraternidade que, no caso brasileiro, o constituinte teve a coragem de converter em instituto jurídico, pois acenou com o projeto de edificar uma pátria justa, fraterna e solidária.

Ainda se está muito longe disso. Mas não é impossível. Quantas as famílias que tiveram perdas irreparáveis? Quantos lares feridos? Como se calcula o temor, o pânico, a preocupação de filhos que estavam apavorados com a possibilidade de seus pais e avós serem levados pela covid? E vice-versa, os pais e avós que não dormiam por pensar que seus descendentes poderiam ser as próximas vítimas?

O sentimento geral de impotência, de desamparo e de perplexidade ante o recrudescimento da contaminação, a letalidade maior, as mortes aos milhares, precisa ter valido a pena. Fazer com que a humanidade, finalmente, assuma o compromisso de ser mais humana.

Será isso possível? Se for, terá valido a pena passar por esta dolorosa e inesquecível experiência.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022


Notícias relevantes: