Opinião

O maior espetáculo da Terra


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Você conhece os filmes “Ziegfeld, o Criador de Estrelas”, “Rosa da Esperança”, “Marty”, “O Homem que Não Vendeu Sua Alma” ou mesmo “Gente como a Gente”? Não se preocupe se a resposta for “não”. Essas produções não costumam ser lembradas. E o que elas têm em comum? Todas venceram o Oscar de melhor filme.

Como se vê, ganhar o prêmio mais famoso do cinema - em sua nonagésima terceira edição no próximo domingo (25) - não garante um lugar privilegiado na História e na lembrança da maioria. E alguns grandes filmes que ganharam o Oscar - como “Casablanca”, “Lawrence da Arábia” e “O Poderoso Chefão” - não continuam lembrados por causa do prêmio. Eles resistiram à prova do tempo porque são grandes filmes, simples assim.

Importante lembrar que o Oscar nasce no seio da indústria americana para valorizar seu próprio produto. No início, os artistas e o público ficavam sabendo quem eram os vencedores semanas antes da entrega das estatuetas. Mais tarde, quando se criou a expectativa e a corrida pela vitória, e sobretudo quando a festa passou a ser televisionada, o Oscar tornou-se um show sem precedentes em termos de audiência mundial. Há quem ame e quem odeie.

Em sua coluna na Folha de S. Paulo, em 1976, Paulo Francis chamou o Oscar de “pior show de TV da Terra” e “desfile gagá”. É verdade que o Oscar já foi mais cafona. Mais longo, também: era comum, ainda nos anos 1990, uma festa de discursos intermináveis, feita à pura rasgação de seda, a testar os limites do telespectador brasileiro madrugada adentro.

Diferente das campanhas políticas, nas quais os candidatos atracam-se de forma verbal e às claras, nas campanhas do Oscar - feitas de valores milionários - os concorrentes tendem a se elogiar em público e às vezes detonar o oponente nos bastidores.

Foi o que ocorreu em 1999, quando Harvey Weinstein criou uma campanha agressiva para fazer todos acreditarem que seu “Shakespeare Apaixonado” era muito mais que uma comédia simpática, e que “O Resgate do Soldado Ryan” era apenas um filme com 30 minutos iniciais acima da média. Deu certo: o “cavalo” de Weinstein chegou em primeiro lugar.

A tempo cobra seu débito. O caso “Shakespeare” tornou-se um dos mais vergonhosos da História do prêmio e escancarou como nunca as artimanhas de uma campanha suja por votos - com direito a convite para festas e outros mimos. Arte? Quase sempre em segundo plano.

Felizmente nem tudo se resume à grana. Em 1978, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” venceu “Guerra nas Estrelas”. Um blockbuster milionário via-se então derrotado por uma comédia autoral. Décadas depois, “Guerra ao Terror” bateu “Avatar”. O que a consagração desses nanicos ensinam ao espectador? No caso do Oscar, nem sempre dinheiro e poder contam mais; há de se dialogar com sua época, transmitir o chamado zeitgeist.

Qual o espírito do nosso tempo? O favorito a levar o prêmio na próxima edição do Oscar é a história de uma mulher sem casa, que vive sozinha em uma van e faz bicos em empresas como a Amazon. “Nomadland” recorre aos perdedores da América que não se tornou grande de novo, ao contrário do que dizia um slogan presidencial.

Há outras boas pedidas. “Minari”, quase todo falado em coreano, traz-nos a história de uma família imigrante que tenta prosperar nos Estados Unidos; “O Som do Silêncio”, a de um baterista de thrash metal que perde a audição; “Mank”, a de um roteirista alcoólatra que resolve contar a história de um barão da mídia americana; “Judas e o Messias Negro”, a da estranha humanidade que um delator e agente infiltrado pode assumir, e sobre como um líder dos Panteras Negras foi traído por esse mesmo homem, que se faz de amigo.

Há também uma bomba. É comum o Oscar ser seduzido por elencos grandiosos e roteiros aparentemente espertos. “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin, é raso do início ao fim, um filme que nos faz corar enquanto busca equilíbrio entre drama e comédia e, pior ainda, enquanto posa de simulacro dos problemas americanos. Resulta apenas no “nós contra eles”, e corre o risco de vencer o prêmio de roteiro original no próximo domingo. Coisas de Oscar.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista. Escreve em palavrasdecinema.com


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