Opinião

Transgredir para transcender

O que queria dizer a Esperança sobre o Karma?


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Wagner Nacarato
Crédito: divulgação

Era quase meia-noite. Morto de sono, procurei a cama e ao afundar minha cabeça no macio travesseiro, vi com os olhos fechados, Giovanni di Pietro diBernardone. O que ele queria de mim?

Giovanni lembrou-me de uma cena recente, que havia mexido muito comigo. Entrava, não sei o porquê, para um dos quartos da casa, e ao olhar os perfumes que ficavam sobre a cômoda, percebi a presença de uma Esperança, que sempre chamei, erroneamente, de gafanhoto. E ao vê-la, lembrei-me da simbologia que ela sempre me trazia. Tentei voltar à vida normal, mas a Esperança estava lá me aguardando. Voltei para o quarto e me aproximei dela. Era verde, de um verde Esperança. E de repente, vi que ela estava sobre o frasco de um perfume chamado Karma. Qual a mensagem que estava querendo me passar?

Saí do quarto e percebi que havia algo ali. Não era apenas coincidência. Existe coincidência e existe sincronicidade. Jung disse que sincronicidade é uma coincidência significativa. Mas seria este o significado desta recente aparição? Acredito que havia algo mais na imagem: a presença do Karma.

Se você acha que Karma é um castigo, está totalmente enganado. Karma é repetição de algo que você, ainda, não conseguiu resolver em alguma etapa da vida. Quando você, por meio do autoconhecimento, acessa as raízes mais profundas que originam a repetição e consegue dar um ressignificado a tudo, você se liberta dela.

Quando era adolescente, na escola, participei da minha primeira peça teatral, no papel de Francisco de Assis. O que trouxe comigo daquela experiência foi a aproximação de Francisco com os animais. Dizem que ele, ao se despojar de tudo e mergulhar sua vida na floresta, os animais se aproximaram. Assim, também, aconteceu com o príncipe Sidarta, que ao dizer não à vida palaciana, pode se aproximar da natureza e debaixo de uma árvore, recebeu a iluminação e foi chamado, daquele momento em diante, de Buda.

Sempre sentia um impulso para morar, um dia, na Serra do Japi. E quando acabou meu contrato, com um imóvel, que tinha como vista a Serra, olhei para ela e disse: deste pequeno apartamento irei até você. Após poucos dias, uma amiga me ligou e me fez o convite para morar em sua casa na Serra. Isto é sincronicidade.

Na minha casa isolada de todos e da cidade, e com o céu, incrivelmente, decorado por inúmeras estrelas, fui mergulhando no sistema daquele lugar. Certa vez, debruçado sobre um livro, na varanda, disse a mim: é hora de ter um gato. Dias passaram e fui surpreendido com o barulho de um bicho, na mata. Ao olhar, achei que era uma jaguatirica. Corri para dentro e fiquei olhando. O bicho começou a se aproximar e mais perto, vi que era o gato que havia solicitado. Ao abrir a porta, ele correu para o sofá e durante vários dias ele dormiu ali. Ninguém conseguia fazê-lo acordar. Mas, ao recuperar suas energias, ele recebeu o nome de Ravi. Isto é sincronicidade.

Quando, ao abrir meus exames médicos, ao saber do câncer, fechei os exames e dirige-me para uma petshop, que estava, sempre, no meu caminho, mas nunca tinha entrado. Dirigi-me até ela, sabendo que ali, encontraria um Schnauzer. E, sincronicamente, ele estava, lá, me esperando. E desde ao sair da petshop, chamei-o de Shabbat, meu descanso.

Lembrei-me de uma conversa com o Rabino Nilton Bonder. Ele afirmava que para o mundo, para a gente transcender, era necessário transgredir. E apontava inúmeras histórias de transgressores. Entre elas, estava a de Giovanni, o São Francisco. Giovanni era de uma família rica e resolveu largar tudo. Giovanni seguia um Jesus, que, também, largou tudo para seguir sua missão. E foi Jesus que transgrediu diversos preceitos do Judaísmo para que uma nova ordem pudesse surgir. Giovanni era um transgressor. Jesus foi um transgressor. Seria eu um transgressor?

Agora desperto, tento traçar elos entre todos os personagens aqui apresentados. Todos estão ligados. Não importa o tempo, a cidade, ou até mesmo se falam palavras ou não. O que queria dizer a Esperança sobre o Karma?

Confesso que, até agora, não sei a resposta. Acredito sim que a vida é simbólica. Ela nos fala por meio de símbolos. Vai nos dando sinais, vai alimentando e fortalecendo nossas almas, vai nos direcionando para aquilo que precisamos de fato encontrar na jornada. Mas para isto é preciso estar atento e forte.

WAGNER NACARATO
é coordenador de cultura,
professor e diretor de teatro


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