Opinião

Cúpula do Clima: a derrota do negacionismo

Corremos o risco, por omissão, de atingirmos o ponto de não retorno


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Miguel Haddad
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Há quase meio século a Ciência vem nos alertando acerca da ameaça do aumento da temperatura global, causada pela emissão de gases resultantes da queima de combustíveis fósseis. Durante todos esses anos as vozes da Ciência foram relegadas, quando não recebidas com desconfiança, em razão de um fenômeno social de raízes antigas: o negacionismo.

Mesmo cercado de evidências, de alertas de instituições como a Agência Espacial Norte Americana (Nasa), o combate efetivo à ameaça do aumento da temperatura global foi continuamente postergado, e até mesmo confrontado como ocorreu na administração Donald Trump e em outros países que seguiram essa posição.

A demora em tomar providências efetivas para diminuir a emissão desses gases pode ser fatal. Corremos o risco, por essa omissão, de atingirmos o chamado ponto de não retorno, a partir do qual não é mais possível reverter a sucessão de eventos. O exemplo clássico é o do avião cujo piloto somente percebe a pane do combustível no meio do oceano, quando não dá mais para retornar ao ponto de partida ou seguir em frente.

Denominado de efeito Greta Thunberg, em homenagem ao singelo grito solitário daquela menina que comoveu o mundo, os alertas da Ciência, evidenciados pelos fatos, finalmente sobrepujaram o negacionismo e estão hoje na ordem do dia. A cúpula do clima convocada por Biden não deixa mais margem de dúvida sobre isso.

Na realidade, desde o Fórum de Davos, o encontro anual de lideranças mundiais nos mais variados campos da atividade humana na cidade de Davos, na Suíça, realizado em janeiro de 2020 - um marco na mudança de atitude das corporações, governos e outras instâncias importantes nas decisões planetárias - a questão do desequilíbrio climático passou a ser vista em sua real dimensão: a maior ameaça à continuidade da Civilização.

Todavia, a esperança que se seguiu a essa constatação - e às medidas que forçosamente seriam tomadas a partir daí para combater a catástrofe - foi minada pelo advento da pandemia e, como se não bastasse, pela eleição de um negacionista à presidência dos Estados Unidos, que retirou o seu país do Acordo de Paris, o projeto mundial de combate ao aquecimento global.

Mesmo assim, embora sem contar com a participação dos Estados Unidos, a China - hoje na liderança mundial no combate aos gases do chamado Efeito Estufa -, a União Europeia, o Japão, entre dezenas de outros países, mantiveram vivo o compromisso acordado.

Com a derrota de Trump, o negacionismo perdeu um dos seus esteios mais importantes. Eleito, Joe Biden dedicou-se, de forma decidida, cumprindo o que prometera em sua campanha, a promover o engajamento de seu país no combate ao desequilíbrio climático.

O marco inicial desse posicionamento, a reunião de lideranças mundiais que acabamos de assistir, consolida a profunda mudança na visão do mundo da sociedade moderna.

Nosso País, todavia, não parece de fato entender o significado dessas grandes mudanças. Aqui o negacionismo persiste e seus efeitos nefastos podem ser vistos na dificuldade que encontramos para estabelecer um plano nacional coerente de combate ao vírus e no desmonte dos organismos e instituições dedicadas à tarefa de evitar a degradação do nosso valioso patrimônio ecológico.

Vamos aguardar os resultados do discurso feito pelo presidente da República no encontro das lideranças mundiais, um discurso coerente, propondo medidas necessárias para uma ação nacional de combate ao desequilíbrio climático em nosso território, que esperamos, seja para valer, e marque o início do fim da persistência, em nosso País, do anacronismo negacionista.

O posicionamento do Brasil é chave para conseguirmos aliviar os efeitos da emissão de gases poluentes. Temos as maiores florestas do mundo e uma matriz energética assentada em recursos renováveis. Dificilmente haverá, no planeta, um patrimônio de maior valor no combate efetivo ao desequilíbrio do clima.

Vivemos um momento de grandes desafios. O que está em jogo é o mundo que deixaremos para os nossos filhos e os nossos netos.

MIGUEL HADDAD é ex-deputado federal


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