Opinião

Encontros e despedidas e o poder médico

A dor, a lágrima e a despedida sempre irão prejudicar a rotina


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MARGARETE ARILHA NOVA
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Milton Nascimento e Fernando Brandt compuseram uma das muitas jOias da música popular brasileira, "Encontros e Despedidas". Uma última estrofe canta "Todos os dias é um vai e vem, a vida se repete na estação, tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que... ". Uma verdadeira preciosidade para ajudar a pensar no significado da vida e da morte, e de seus rituais de aproximação a momentos de transição e de muita dificuldade. Sim, porque o teor da letra da música pode remeter a distintos movimentos e circulação. Por exemplo, podemos pensar metaforicamente nos processos migratórios ou em relações afetivas, amores, que vão e vem . Na vida que estamos vivendo, num contexto brutal de rupturas de contato afetivo ou mortes, temos que pensar sobre o que vem sucedendo nas instituições hospitalares, com os profissionais de saúde em exercício, no contexto entre o mundo dos muros das instituições de saúde, e para além dos muros. O mundo da tecnologia, e o mundo dos afetos, mediados pelos pequenos (e grandes) poderes da Medicina.

Dentre tantas histórias que escutei nesse ano I da pandemia da covid-19, houve uma em que um senhor vinha conversando regularmente com seu primo, internado por coronavírus, contato esse que cessa com uma última informação - 'agora vou me concentrar em meu tratamento, não vou mais poder falar por aqui'. Dois dias depois revelou-se sua morte. Questões que me coloco como profissional do âmbito da saúde mental, e que tem também em seus princípios questões éticas que zelam pelos procedimentos que são realizados pelo setor saúde. O que teria sido dito a esse paciente nesse momento? Vai ser intubado e precisa se concentrar no seu tratamento de saúde? O que seria se concentrar no seu tratamento de saúde? Que tipo de orientações seriam dadas a essas pessoas, assim, de repente: "Você será intubado e pode efetivamente melhorar suas condições ou pode, também, vir a perder sua vida? Desejaria conversar com seus familiares ou com algum de seus familiares? Existe essa possibilidade?".

Acredita-se que esses familiares, até para conseguirem elaborar em melhores condições a situação de crise e eventual despedida ou um luto, poderiam ser avisados desse processo e então efetivamente tentarem se aproximar. Alguém dirá que isso não seria factível. Haverá certamente casos de máxima urgência onde isso não possa se dar. No entanto, em muitos outros, certamente seria possível. Escutei o relato de um caso em que num processo deste tipo a família decide tocar e cantar para o enfermo a sua música predileta. Uma forma de despedida que certamente pode contribuir com a diminuição das dores de todos, ou pelo menos ter facilitado a simbolização do processo vivido, tão necessário a quem vive a separação pela morte. Agora a questão: o sistema de saúde tem capacidade de escuta e de abertura de espaço para esse tipo de dor? Até que ponto a burocracia é referida como num processo kafkaniano para impedir o acesso do sujeito ao que ele tem de mais importante num momento de dor e de aflição e de morte iminente?

Um parecer produzido e homologado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo, aprovado em 11 de março de 2021, sob a égide da manutenção da ordem e do bom funcionamento do sistema de saúde, condiciona a aproximação de familiares, a "horários predeterminados e sobrepesando dificuldades operacionais como não gerar um fator a prejudicar as rotinas dos serviços". Quem e como e quando se avalia o que pode prejudicar as rotinas dos serviços? A dor, a lágrima e a despedida, sempre "prejudicarão as rotinas dos serviços". O poder médico fala em alto e bom tom. Outro aspecto indicado é que um sujeito sedado ou em coma não poderia estabelecer interação com os familiares". Seria muito interessante que isso fosse dito e aberto claramente à sociedade em geral

Se algum dia chegar a estar nestas condições - quero ouvir a voz de meus queridos até o final de minha vida, minha vontade sobre a do establishment médico. Declarado.

MARGARETH ARILHA
é psicanalista e pesquisadora do
Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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