Opinião

A economia colaborativa

Ações governamentais são extremamente complexas pela burocracia


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Semana passada recebi uma mensagem de um jundiaiense que admiro muito, o Grilo do Cardume. Era o convite para participar de uma ação coletiva e independente de apoio à cultura, chamada Espalha!, é um financiamento coletivo para fomentar projetos culturais de jovens da periferia do município. Me fez pensar em várias coisas, primeiro no conceito de política, na concretização da economia colaborativa e como isso tudo culmina com a auto-responsabilidade pelo mundo que nos cerca.

Trabalhei numa agência de inteligência em Brasília, ligada ao governo federal, sofri na pele o que significa fazer política de Estado e ali aprendi o quanto o conceito de política é deturpado pelo jogo partidário estabelecido. Entendi ao desenvolver políticas públicas, lidando com o contribuinte (teoricamente dono desse recurso financeiro) que somos todos políticos, no seu conceito mais profundo, da Polis, das nossas relações e portanto das nossas responsabilidades como cidadãos. Passei a acreditar e respeitar ações independentes.

Ações governamentais são extremamente complexas, pelas dificuldades burocráticas, pelas extensas e confusas contas prestadas aos tribunais. Mas principalmente pelo que roda por trás, que não estão em estatutos ou leis, jogos de interesses de todas as partes, incluindo dos próprios cidadãos. Entendi que interesse é um conceito também deturpado. Porque afinal o governante que foi eleito representa o interesse de um determinado grupo que o elegeu. O problema é o grau de transparência, coerência e verdade do que de fato motiva a ação política, maquiada de interesse coletivo. No caso do movimento criado em Jundiaí, o interesse é claro, é deixado público, e mais ainda é livre, aquele que contribui com seu próprio recurso financeiro tem claro também o seu retorno; que vai além da compreensão da necessidade de fomentar a cultura marginal (no sentido de descentralizada) de Jundiaí.

O projeto usa financiamento coletivo, que é um recurso da economia colaborativa. A economia colaborativa traz uma transformação importante no conceito de "valor" da economia capitalista tradicional. Mas o que é valor? Valor é aquilo que o consumidor percebe quando consome um bem, é a satisfação de uma determinada necessidade. Essa percepção, esta satisfação, pode ser de várias formas. Valor do uso, quando o objeto valorado tem uma determinada utilidade no momento, independentemente da posse deste objeto. A satisfação em usar determinado bem, é maior que o sentimento (teoricamente ruim) de desapego do recurso financeiro necessário para obter o seu acesso.

O modelo colaborativo enfatiza o valor de uso dos bens, a experiência, em oposição ao valor de posse, tão enfatizado na economia tradicional. O valor de posse refere-se ao sentimento de satisfação de ter, ser dono, ter propriedade de determinado bem, independentemente do seu uso. Exemplos de economia colaborativa são Uber, Airbnb e os próprios financiamentos coletivos, como o catarse, escolhido pelo movimento Espalha!. Um determinado grupo de pessoas tem a posse de determinados bens, o carro do motorista do Uber, a casa do proprietário no Airbnb ou o dinheiro de um determinado grupo no catarse. Este grupo monetiza a partir da oferta do uso temporário do bem para os clientes, ou seja, vendem a satisfação de uma necessidade, a experiência que o bem proporciona, sem contudo abrir mão da sua propriedade. No nosso caso jundiaiense, o Espalha! não é proprietário do dinheiro, ele busca no recurso de propriedade coletiva, o seu valor de uso, usá-lo para o desenvolvimento da cultura. Ele proporciona uma experiência para além da relação transacional ordinária (comprador, vendedor); para além da relação patriarcal (financiador, receptor).

Mesmo que ao financiar um projeto deste tipo, eu, você, quem for, não monetize o dinheiro investido, ainda assim, o projeto se encaixa como uma ação política e econômica de cunho colaborativo. Mas então o que motiva, qual necessidade está sendo satisfeita quando o indivíduo contribui para um projeto de fomento cultural? Ao meu ver, a necessidade intrínseca e nata de fazer política, de ser parte ativa da transformação do seu entorno. É uma forma um tanto bonita de trazer para si a responsabilidade daquilo que acredita necessário mudar, tanto de quem organiza um movimento desse tipo, quanto de quem o fomenta. Sou grata ao Coletivo Cultura Jundiahy, ao Cardume e à Tomada Cultural por, mesmo que sutilmente, satisfazer minha necessidade de pertencimento à minha Polis Jundiaí.

ELISA CARLOS. Em constante atualização, é empreendedora, engenheira, cozinheira, mãe Waldorf da Nina e da Gabi


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