Opinião

Outrora foi assim

Não havia televisão. Conversar era a distração disponível


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Houve um tempo, há algumas décadas, em que era comum se fazer visitas. As famílias iam inteiras - pai, mãe e filhos - à casa de parentes ou amigos. Era hábito rotineiro, fazia parte dos costumes da época. Não havia televisão. Conversar era a distração disponível.

Enquanto as crianças brincavam - nunca participavam do diálogo entre adultos - pais trocavam ideias e tomavam licor, enquanto mordiscavam biscoitos feitos pela dona da casa. Ou então um bolo caseiro, carinhosamente preparado para a ocasião.

Essas eram visitas informais, mas programadas. Avisava-se com antecedência. Todavia, também ocorriam visitas mais solenes. Por ocasião da morte de um amigo ou pessoa da sua família, era uma obrigação a visita à casa enlutada. A solidariedade se fazia mediante presença física. Além do comparecimento ao féretro e à missa de sétimo dia.

Poucas as visitas sem aviso. Era preciso um grau de parentesco ou de amizade muito próximo. As pessoas sabiam administrar essa condição. Não era de bom tom chegar sem avisar. Principalmente no horário das refeições.

Nas noites de verão, as pessoas traziam suas cadeiras para o passeio e ficavam ali algumas horas. Vizinhos se acercavam. Estabelecia-se uma roda de conversa.

Outro costume experimentado nas cidades brasileiras. A dona de casa que preparava uma iguaria, cuidava de oferecer uma parte para a vizinha da casa contígua. Repartia-se o que era mais gostoso. Assim como não era raro emprestar-se ovos, açúcar, pó de café ou o que momentaneamente faltasse à despensa. Quando da devolução, havia sempre um mimo a acompanhar o empréstimo. Uma fatia de bolo, uma compota, uma geleia, alguns biscoitinhos que eram a especialidade da vizinha.

As compras mensais eram feitas em armazéns que se tornavam uma espécie de centro das informações locais. Ali, tudo se sabia. O próprio comerciante conhecia os seus fregueses. Eles portavam cadernetas onde se anotava o valor das aquisições e se abatia cada pagamento feito.

A escolha dos mantimentos era feita, em regra, pelo marido. Ele é que conhecia o merceeiro, experimentava os queijos, os frios, examinava o feijão, o arroz, o bacalhau. A elaboração era um ritual lento. Várias horas de seleção, até que toda a mercadoria estivesse pronta para a entrega. Ela se faria talvez dois dias depois, com uma carroça do próprio armazém. Se o freguês se fizesse acompanhar de um filho, a criança recebia sempre uma guloseima do comerciante. Um pirulito vermelho, em forma de chupeta. Ou uma espécie de bala que lembrava uma vela, colorida de verde e vermelho. Talvez em homenagem à bandeira italiana.

Acreditarão os jovens de hoje que havia um pedido de casamento feito pelo pretendente ao pai da noiva? Essa delicadeza perdurou até recentemente. Hoje, não sei se algum nicho familiar ainda a conserva.

Outro hábito que se manteve durante período imemorial era o de se entregar em mãos o convite de casamento. Os noivos iam pessoalmente à residência dos convidados e demonstravam o respeito para com eles. Por sua vez, os que eram brindados com essa deferência também levavam o presente para o novo casal, em visita à residência do nubente mais próximo.

Tudo aquilo que se oferecia para a formação de um novo lar era cuidadosamente exposto num dos cômodos da casa, o que se chamava "ramalhete". A mãe do noivo ou da noiva exibia, orgulhosa, a prova do prestígio familiar, sob a modalidade visível dos objetos escolhidos pelos amigos da família.

Assim que voltavam da lua-de-mel, os noivos encaminhavam cartão de agradecimento, oferta da nova residência e menção explícita ao presente recebido. Este hábito ainda se mantém, ao menos em certas esferas. Assim como o costume de se enviar um cartão de agradecimento pela manifestação de amizade por ocasião do falecimento de pessoa da família.

Hoje, as redes sociais propiciam a ficção de alguém possuir milhares de amigos. Serão amigos aqueles que podemos "cancelar" ou "deletar" com um clique? Houve progresso nas relações humanas? É saudosismo brega pensar que já nos sentimos tão próximos a alguns amigos, que os preferíamos a nossos próprios primos, com os quais não tínhamos intimidade? Cogitações inúteis, de quem atravessou várias épocas.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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