Opinião

O silêncio, o ódio e a preguiça das boas almas

Tememos o ódio que pode destruir nosso Ser


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Há tempos venho intrigada com o silêncio das pessoas de boa índole e esta semana recebi um vídeo do Felipe Neto -que não é santo de minha devoção- cobrando atitudes de artistas e influenciadores, fato que levantou uns quantos demônios que eu insisto em manter acorrentados. No vídeo ele citava alguns nomes como Caetano e Chico, ícones da luta contra a ditadura, instigando a classe artística e intelectual a sair a público para dizerem o que pensam sobre os acontecimentos da atualidade. Repetiu inúmeras vezes que tais figuras receavam perder seguidores, temiam o ódio e a cultura do cancelamento. Resumindo, ele estava cobrando figurões com visibilidade, como ele, que se posicionassem frente aos desmandos seculares que ocorrem neste país.

Um dos demônios me lembrou que os silêncios podem ter ruídos aviltantes e esse discurso me fez pensar nas inúmeras vezes que me calei por medo de ser agredida ou simplesmente por medo de causar uma situação constrangedora, ainda que eu acreditasse, no momento, que o quE eu tinha a dizer poderia frutificar. São cada vez mais raros os momentos nos quais uma pessoa pode se expor sem comprar uma boa confusão, uma vez que o ódio que vem do outro aponta para aquilo que no seu Ser pode ser totalmente destruído. Tememos o ódio que pode destruir nosso Ser, inquieta-nos que nesse movimento vá por água baixo também nossa imagem egóica, todo aquele imaginário esplendoroso que criamos sobre nós mesmos e como contrapartida nos tornamos raivosos, invejosos, tomados pela frustração de uma pátria sem futuro, apavorados com um vírus que trouxe à claridade o fato de que a única garantia que temos na vida é a morte. Por essas e por outras, avançamos enfurecidos como gladiadores a defender nossos malvados políticos de estimação e ideais comprados facilmente pelo WhatsApp. Ter a ilusão de que o que pensamos é o mais correto, traz a impressão de que conseguimos acalmar algumas Fúrias e de que somos indestrutíveis.

Assim como o Felipe Neto, também acho estranho que alguns não se pronunciem, pois afinal algumas batalhas devem ser compradas, principalmente aquelas que podem trazer melhorias para o coletivo e para o futuro. O cenário dantesco do Brasil da última década valeria uma boa revolução.

Que efeito recaiu sobre a sociedade brasileira que não produz mais artistas, músicos, estudantes e intelectuais que saiam a luz para questionar as mentiras que estão sendo colocadas como verdades absolutas? Onde está a turma da balbÚrdia? Quando foi que a arte deixou de ser ferramenta de mudança e passou a ser um setor apenas de venda de entretenimento? Pouquíssimos setores da sociedade têm se organizado para pensar as mudanças. O que está acontecendo? Que país é este?

A partir disso só posso afirmar que as boas almas deste país estão com preguiça, o que é uma péssima notícia, porque se não nos reunirmos para pensar ações e romper com a cultura do ódio e da destruição, o pior virá. Parece-me que falta um certo espírito de comunhão, talvez o tão anunciado individualismo contemporâneo tenha criado raízes profundas. Quantas vezes, caros leitores, vocês escutaram frases desmotivando a reunião para reivindicar mudanças? Eu me choco quando tento organizar um grupo de mães na porta da escola para solicitarmos qualquer mudança ou fazer um questionamento e ouço frases pseudobudistas como "nenhuma escola é perfeita", ou a pior "não vale a pena entrar nestes méritos". Se não é possível reunir mulheres, mães, seres tomados no ventre por seus próprios filhos, é porque algo está muito errado.

A preguiça das boas almas abre caminho para o mal. Estes males chegarão até nós porque decidimos não fazer nada e, ninguém se livrará deles se não houver uma congregação com o outro, pelo simples fato de que ninguém muda nada sozinho. O outro por mais incÔmodo que seja é uma variável necessária.

Posso estar absurdamente equivocada, mas assim como afirmava Darcy Ribeiro, mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para nada.

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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