Opinião

Mãe: que falta de seu colo!

Como conciliar sua vida infinita e a partida dos seres que elas geraram?


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Hoje é o Dia das Mães. Dia triste para quem já perdeu a sua. Meu caso. Este ano completará dezesseis anos em que não posso abraçá-la, entregar um presente, dizer "Feliz Dia das Mães!".

Sei que não sou o único. Também tenho de agradecer o privilégio de tê-la comigo até pouco antes de me tornar sexagenário, ou seja, idoso por força da lei. Mas isso não impede que eu me sinta sempre desprotegido, ausente a única pessoa que me amou incondicionalmente. Era capaz de contrariar as leis naturais para perfilhar ao lado do filho.

Não há dia em que não converse com ela. Intuo o que me diria diante de cada situação com que me defronto. O que estaria dizendo neste período sombrio da vida humana, sobretudo de um Brasil que ignorou a peste e está prestes a enterrar meio milhão de filhos seus?

Sinto sua presença a aconselhar-me. A me recomendar paciência, tolerância, submissão diante daquilo que não posso mudar. Ânimo para mudar aquilo que posso e, mais do que isso, devo mudar.

Dia 30 de junho ela completaria 100 anos. Sei que é idade avançada, mas muitos chegam ao centenário neste século, mercê dos avanços científicos, favorecedores da longevidade.

Só sei que orfandade não tem idade. E que mãe não deveria morrer. Entretanto, como conciliar sua vida infinita e a partida dos seres que elas geraram? Seria um castigo imenso, que nenhuma mãe suportaria.

Quando repito, para os muitos amigos que também perdem sua mãe, aquela frase que para mim é mantra: "Quem tem mãe, tem tudo; quem não tem mãe, não tem nada", sinto sua veracidade e é realmente assim que penso. Só quem teve profunda ligação com a mãe pode avaliar o conteúdo dessa expressão, que não é mera frase de efeito.

Sei que tal sentimento não é partilhado pela unanimidade das pessoas. Assisto, pesaroso, a desentendimentos entre mãe e filhos. É incompreensível que filhos não consigam detectar em suas mães o mais autêntico testemunho do amor. O que as mães sentem e vivenciam, em relação às suas crias, é algo intenso. O amor materno é uma força incrível, misteriosa, inexplicável.

Por isso é que hoje os ressentimentos, as controvérsias, os desentendimentos, as incompreensões deveriam ceder espaço para a manifestação de carinho, alimento da maternidade.

As mães se satisfazem com pouco. Uma palavra, um abraço, um gesto. Às vezes, mero olhar. Há tanto a ser dito mediante um olhar certeiro, olhos nos olhos, dizendo mais do que todo um ensaio sobre a maternidade.

Hora de pensar nas mães que perderam seus filhos. Não há dor maior do que perder filho. Nunca deixei de pensar que a perda de pais gera orfandade; enterrar marido ou mulher produz viuvez. Mas nem existe verbete para exprimir a perda de um filho. Alimento a ideia de que perder filho torna a pessoa um ser humano infeliz, desgraçado, miserável. Indizível!

Dia de pensar nas mães que não têm alimento a ofertar à sua prole. E quantas há neste Brasil que é uma das mais iníquas sociedades mundiais. A pandemia escancarou a miséria, a invisibilidade, a exclusão. Legiões de despossuídos estou hoje à procura de alimentação, de trabalho, de moradia, de saúde.

Momento de pensar na Pátria, que é, metaforicamente, a mãe de todos os brasileiros e que tem sido madrasta para tantos deles, deixando de propiciar o mínimo existencial para que todo humano tenha condições de exaurir suas potencialidades, rumo à perfectibilidade, até chegar à plenitude possível. Um solo abençoado, com a mais exuberante biodiversidade do planeta, infelizmente entregue à criminalidade!

Encontrar lenitivo na crença, pois uma das mensagens que os munidos com a graça da fé endereçam aos órfãos, é o de que agora contam com duas mães a interceder por eles e por suas intenções na transcendência: a mãe biológica, que a morte levou. A mãe espiritual, Maria, Nossa Senhora, a mediadora, a clamar pela humanidade ferida, maltratada e triste, mas confiante!

Ousemos esperar que o Brasil saia de suas múltiplas crises. Nossa vocação se chama esperança! Sem o sonho não se vive!

Tudo isso percorre nossa mente neste segundo domingo de maio. Mas no fundo, a vontade é mesmo dizer: D.Benedita! Sinto muita falta de seu colo!

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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