Opinião

Eles em nós

Passamos de "país que decola" para a condição de "pária internacional"


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Escrito por Idelber Avelar, "Eles em nós, retórica e antagonismo político no Brasil do século 21" é um livro original e instigante. Professor de Literatura na Universidade de Tulane, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, Avelar usa a análise do discurso - um ramo da Linguística - para compreender a política brasileira neste século. Com texto acessível e em linguagem envolvente, o professor analisa o cenário recente, desde a eleição de Lula, em 2002, até a chegada ao Planalto de Bolsonaro, em 2018 (o livro foi concluído em setembro de 2019). A partir das falas dos atores políticos, o autor recria a cena brasileira nestas duas tão agitadas quanto surpreendentes décadas, em que passamos de "país que decola" para a condição de "pária internacional". Avelar chega ao desmonte atual, mas antes revê os mandatos de Lula, Dilma e Temer. Demonstra como o petista administrou um governo recheado de contradições - os oxímoros ou paradoxos explicados pelo autor --, em que o anúncio de mudanças mantinha acesa a militância. Ao mesmo tempo, agradava o conservadorismo ao assegurar a manutenção da ordem de sempre (pergunta-se: sob Lula ocorreram as tão propaladas quanto necessárias reformas tributária, política, do Estado, da previdência?).

Avelar chama a atenção para dois momentos distintos: o Lula de 2003 a 2005 é um conciliador, reforçando em seus discursos que o Brasil não deveria ficar refém do "coitadismo", que precisaríamos vencer nosso "complexo de vira-latas". A partir do escândalo do mensalão, em 2005, no qual se escancaram as "mesadas" pagas pelo governo a parlamentares para manterem-se aliados, o discurso do presidente se altera. Lula retorna à oratória de anos anteriores em que vislumbrava um "outro" a ser enfrentado: "as elites", "os que desprezam os pobres". Mas bom administrador de crises (elas saíam do Planalto menores do que entravam), Lula terminou seu mandato em alta, com popularidade recorde, e impôs ao partido sua sucessora. A "gerentona" Dilma, aplaudida por seu inventor, revelou-se inábil, sendo atacada por muitos e com poucos aliados (nem mesmo seus ministros dispuseram-se a defendê-la). O autor dedica capítulo especial ao Junho (assim mesmo, com maiúscula) de 2013, episódio a ser mais estudado e compreendido na História brasileira, em que milhares foram as ruas reivindicando mudanças. Movimento difuso, espontâneo, com pautas muitas vezes contraditórias, Junho começou contra o aumento da tarifa de ônibus, mas agigantou-se e ocupou as ruas do país. Pela primeira vez desde sua fundação, o PT não só estava de fora como não foi - assim como o PSDB -- bem-vindo quando tentou comparecer. Dilma respondeu tarde e com uma esdrúxula "constituinte parcial" encarregada de uma "reforma política". A proposta naufragou rápido. No rastro de Junho, seguem-se as movimentações pelo impeachment de Dilma, com as ruas novamente lotadas.

Avelar passa ainda pela Lava Jato, outra novidade do léxico nacional. Mostra como a operação "jurídico-político-policial" desvendou um escandaloso esquema de corrupção. Mas lembra também sua irmã gêmea, a Vaza Jato, que revelou a face ilegal e tendenciosa de procuradores e juiz. O livro revê o período Temer, governo que se arrastou asfixiado por graves acusações. E chega à eleição para presidente da República de um inexpressivo deputado do baixo clero, há 27 anos na Câmara Federal sem se destacar, mas que soube - utilizando-se maciçamente das plataformas digitais -- apresentar-se como o que iria "mudar tudo que está aí". O "bolsonarismo" aparece como a coalizão de diversos antagonismos represados. Junta o que o autor chama de o Partido do Boi, o da Bala, o Teocrata, o da Ordem, o Partido do Mercado. Desde sempre autoritário, nepotista, paranoico, obscurantista, com limitações cognitivas, o "mito" demonstra em dois anos seu empenho para destruir o meio ambiente, a ciência, a cultura, a diplomacia, a economia...

Como diz a prefaciadora Marina Silva, "Eles em nós..." é um livro que contribui para que saiamos do "mero e repetitivo embate, dispondo-nos ao livre e produtivo debate". Vamos a ele.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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