Opinião

Anthony Hopkins, gigante

São as lágrimas mais sinceras que surgiram no cinema em anos


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A certa altura de "Meu Pai", perto do encerramento, o protagonista desaba. São as lágrimas mais sinceras que surgiram no cinema em anos. O velho homem em cena revela toda sua dor, incerteza, ou a certeza de quem não tem mais nada e procura pelo afago materno. Estamos sozinhos com ele, e com um grande ator: Anthony Hopkins.

O mesmo assombrou-me na infância. Lembro bem quando as pessoas ao meu redor - mãe, pai, parentes, o dono da locadora - comentavam um filme sobre um canibal. Na cabeça de uma criança, o canibal assumia traços selvagens, espécie de animal que devorava o outro. Mas Hopkins, por trás da parede de vidro da cela, em "O Silêncio dos Inocentes", era outra coisa: um homem fino que falava de bons vinhos e discutia pintura.

O monstro tomava outra forma. Hopkins arrepiava-nos com seu cinismo e pontuação exata. Não ousamos duvidar nem de sua loucura nem de sua inteligência. Afinal, aquele quase coadjuvante era vital à história contada: era ele, justamente o canibal, quem guiava a jovem agente e heroína (Jodie Foster) pelos caminhos de outro assassino em série.

É ele, preso em sua jaula, quem a faz lembrar seu trauma de infância: o som dos cordeiros mortos, o som do medo, a tradução que perpassa os olhos de Foster e nos agarra através das induções desse vilão que tudo sabe, prestes a escapar. "O Silêncio dos Inocentes" ganhou cinco merecidas estatuetas no Oscar 1992. É um marco.

Com esses e outros vários exemplos, em carreira de grandes interpretações, coadjuvantes de luxo e papéis no piloto automático, Hopkins é, sem dúvida, um dos mais versáteis atores vivos. Há astros que sempre viveram o mesmo papel, como Humphrey Bogart; há outros que sempre buscaram o diferente, como Hopkins.

Nem todos se lembram, mas ele esteve em "Leão no Inverno", ótimo filme de estreia de Anthony Harvey. Britânico, trabalhou no "Hamlet" de Tony Richardson. Parece ter nascido velho e sob essas formas se manteve por décadas, como no papel de um perturbado ventriloquista em "Magia Negra", ou do médico honesto de "O Homem Elefante".

Quando chega a Hannibal Lecter, Hopkins já havia feito de tudo, já era um dos grandes e seguiu em personagens desafiadores e sempre diferentes: o mordomo de "Vestígios do Dia", o presidente dos Estados Unidos em "Nixon" e, após pequenos papéis esquecíveis em superproduções como "Alexandre" e "Thor", um abobado Alfred Hitchcock.

Conseguiu inclusive o impensável: deu a Ratzinger uma face agradável, tornando-o velhinho simpático em "Dois Papas". A Igreja Católica deve muito a Anthony Hopkins. O coroamento com "Meu Pai" - um segundo e merecido Oscar de melhor ator contra o então favorito Chadwick Boseman, em indicação póstuma - reafirma a trilha aberta em décadas de trabalho, além da possibilidade de atores idosos conquistarem bons papéis.

Com a enxurrada de produções que miram o público jovem, os mais velhos acabam ficando com personagens secundários. Não raras vezes são os "pais espirituais", os senhores sábios que guiam os heróis pela jornada árdua do descobrimento. Quando se trata de protagonismo, o jeito é partir para produções menores, intimistas, sobre histórias humanas, grupo ao qual se enquadra "Meu Pai", de Florian Zeller.

De novo alguns críticos derraparam com argumentos prontos para filmes com muito diálogo: "são teatrais", dizem. Bobagem. "Meu Pai" é puro cinema, é a nossa imersão no olhar do homem com demência, o percurso através de seu labirinto de paredes e espaços de incerteza, os quais terminam por cair, um a um, até restar apenas o mesmo homem e suas lágrimas, no lugar em que não gostaríamos de vê-lo (não vale revelar mais).

Pela visão inconfiável compreendemos o velho simpático, às vezes turrão, entre momentos de felicidade e outros de total tristeza, surpreendido por imagens que julga desconhecer e refugiado em seu fone de ouvido, na música clássica, enquanto recebe as visitas da filha, do companheiro dela, da nova cuidadora. O problema é que, através desse mesmo olhar, nunca dá pra ver de verdade. Apenas o cinema pode dar conta desse emaranhado, e apenas um ator da estatura de Hopkins pode conferir a densidade que tal personagem exige.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista. Escreve em palavrasdecinema.com


Notícias relevantes: