Opinião

A dor tem cor

São 133 anos da abolição e 388 de escravidão


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ARTICULISTA EGINALDO ONÓRIO
Crédito: .

Pode parecer inacreditável, mas o fato é bastante comum e só quem é sabe o que é e como ser.

Recentemente a rede social repercutiu matéria que constatou o tratamento diferenciado praticado contra as gestantes negras com maior incidência nas de baixa renda.

A violência hospitalar se apresenta desde o acompanhamento pré-natal (quando realizado) em que a maioria não se submete ao mesmo número de sessões específicas, não são tocadas nos exames clínicos de rotina, chegando ao absurdo de não se lhes ministrar a mesma dosagem de anestésicos quando dos partos como também os procedimentos visando a aceleração dos partos sem qualquer preocupação com a dor e suas consequências.

Dado a repercussão e compartilhamentos, um amigo, ao responder minha postagem, disse que eu estava enganado e que a instituição hospitalar mencionada era de grande respeito e credibilida dedeixando transparecer que eu estaria exagerando. Ato contínuo enviei a ele as fontes, a partir das quais foi muito fácil notar o tamanho do distanciamento da realidade, até porque que as pessoas de bem não imaginam que esse tipo de maldade existe!

Já tive a oportunidade de tocar nesse assunto, afirmando que não é preciso integrar grupo familiar onde exista alguém vítima das drogas para avaliar a dificuldade por que passam; não precisa ser mulher, pessoa com deficiência, negro para entender seus dilemas, mas em cada caso se exige maior proximidade com cada segmento o que, invariavelmente, não se verifica e é até utópico esperar com isso.

O maldoso e descabido tratamento dispensado à comunidade negra está arraigado em todo o tecido social. Basta verificar o que ocorre no mercado de trabalho; no processo eleitoral; nas portas giratórias da rede bancária; nas abordagens policiais; nas balas perdidas que coincidentemente acertam os negros; no judiciário onde sofrem as penas mais severas, chegando ao absurdo, de um jovem negro ser condenado a 7 anos de prisão por ter sido identificado única e exclusivamente pelo porte físico etc e etc.

É passada da hora de rever esses conceitos e posturas. Em mais alguns dias chegaremos a 133 anos da abolição da escravidão no Brasil e, infelizmente, fenômenos discriminatórios continuam encontrados nos dias atuais, dando a impressão que a tal abolição ainda não se implementou, sem perder de vista que, por exemplo, nessa pandemia as maiores vítimas são os integrantes da comunidade negra, por estarem na base da pirâmide social, sem acesso ao mínimo de saneamento básico e atenção a saúde, razão pela qual sucumbem com maior incidência. Óbvio.

São 133 anos da abolição e 388 de escravidão. Aqui (Brasil) a diferença é muito grande para que os descendentes dos escravocratas se desamarrem do regime e passem a olhar e tratar os descendentes dos escravizados como iguais.

Diante do que vimos presenciando no cotidiano e em alguns pontos que abordo, não se exige esforço para tal conclusão, na medida em que os processos excludentes e vitimizadores surgem, apesar de valorosos talentos despontarem em todos os ramos sociais, culturais, tecnológicos, de saúde, esportivos entre outros e, mesmo assim são tratados tal e qual nos idos da escravidão!

Por tais razões e fatos, considerando que não são encontrados negros nos altos postos de mando, quer na rede pública ou privada, a tendência é a demora no combate desse comportamento desumano e até despontado nas recentes manifestações públicas de ódio defendendo bandeiras políticas com recortes homofóbicos, raciais, machistas e outros de toda ordem, causando surpresa ímpar ao depararmos com pessoas com esse olhar, que sequer poderíamos imaginar ... mas isso seria tema para um próximo encontro.

Para fechar, neste mês de maio, quero prestar minhas homenagens as mulheres negras que tanto sofreram para manter esse País com vida, vez que pós abolição somente elas mantiveram os empregos na casa grande garantindo a sobrevida dos senhores e dos seus, atualmente, as que sustentam as famílias em carreira solo e, sem qualquer via de dúvidas, exploradas, ignoradas, vítimas de feminicídio e tratamento desumano nas gestações.

EGINALDO HONÓRIO é advogado


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