Opinião

Menos filhos e a pandemia

As mulheres estão tendo seus filhos com mais idade do que há dez anos


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MARGARETE ARILHA NOVA
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O Boletim Seade Informa, de maio de 2021, traz um conjunto de informações extremamente relevante para se refletir sobre o que vem ocorrendo entre as mulheres paulistas no que se refere ao perfil de nascimento em 2020. Nesse ano, cerca de 500 mil crianças nasceram no Estado de São Paulo , representando um decréscimos em relação ao ano anterior de cerca de 31 mil crianças. Ou seja, hoje o estado de São Paulo apresentaria uma taxa de fecundidade de 1,6, ou seja, essa seria a média de filhos tidos por mulher no período. É um indicador extremamente importante para demógrafos, para formuladores e gestores de políticas públicas, especialmente no campo das políticas sociais, saúde e educação, e também para contribuir como cenário de fundo para o pensamento dos movimentos sociais e políticos, especialmente do movimento de mulheres.

Muito estudado como uma taxa indicativa de escolhas e decisões de grupos populacionais em determinados períodos históricos, fala muito acerca da vida das sociedades e suas culturas. É muito interessante notar como a estrutura etária das mães foi se modificando ao longo do tempo. Hoje, há um redução das mulheres que foram mães com menos de 20 anos de idade, caindo de 15% para cerca de 10% se considerados os anos de 2010 e 2020 em processo comparativo. No mesmo período, a participação das mães de 30 anos ou mais na composição das taxas, passou de 34% para 43%, tornando a estrutura um pouco mais envelhecida. Isso significa que as mulheres estão tendo seus filhos com mais idade do que há dez anos atrás. Esse é um fenômeno que já vem sendo estudado e tem como causa a maior escolaridade das mulheres, a estruturação de planos de entrar no mercado de trabalho e a aspiração de construção de carreiras profissionais antes de chegarem a ter filhos, ou deixando-os para mais tarde. Cresce o numero de mães entre 30 e 34 anos e cresce de maneira maior ainda o número de filhos nascidos de mães entre 35 a 39 anos.

Outro aspecto a se considerar é que a estrutura etária das mães não é homogênea se pensarmos nos diversos municípios do estado de São Paulo. No geral, o que se pode verificar é que é maior o número de filhos onde a vulnerabilidade socioeconômica é maior, e a fecundidade mais jovem nos municípios em que a fecundidade é mais elevada. Tudo isso volta a conversar com os antiguíssimos argumentos que o que faltaria nos processos de maternidade adolescente seriam projetos de vida mais associados a perspectivas de formação e profissionalização. Do outro lado estão os municípios que apresentam distribuição etária mais envelhecida, em que a proporção de mães com mais de 30 anos é superior a 40% , e das mais jovens inferior a 10% . Estes municípios estão situados especialmente na região norte e leste do estado.

De certa maneira, o enorme debate que sempre se realizou em torno de como as mulheres escolhem, tanto por decisão consciente, movidas por suas reais condições e possibilidades de vida, mas especialmente a partir de suas posições específicas de seres desejantes, de suas pulsões se criam possibilidades de pensar, especialmente neste momento pandêmico. Os dados coletados e registrados para 2020 trarão em 2021 a possibilidade de tratar de compreender de que maneira um evento tão complexo como a pandemia do coronavírus poderia vir a interferir nas decisões referentes a reprodução. Chama a atenção que dados referentes ao nível de suicídio no Brasil, para 2020, começam a mostrar tendência de queda, o que, se pensado em resultados para a fecundidade em 2020, caso ela não diminua, de que, de alguma maneira, a vida poderia vir a se transformar em bem máximo a ser protegido nesse período tão complexo.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, um crescimento das taxas de fecundidade foi incentivado na Europa especialmente na Alemanha tendo nas mulheres o centro de seu foco de ação. Particularmente eu ousaria dizer que sim, as mulheres devem ser focalizadas pelas políticas públicas de saúde mental, para que possam encontrar forças para produzir uma reinvenção de si mesmas e de sou entorno, uma vez que tem sido arduamente se dedicado a cuidar, com todas suas forças, deste mundo pandêmico.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp


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