Opinião

A morte do Maturana e a transcendência

A felicidade não se produz, não se consome, não cresce infinitamente


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A transformação de si e do mundo não é só uma questão provocada por uma crise. A transformação é uma coisa natural, intrínseca. Deveríamos conseguir lidar com essa transcendência de uma forma positiva, curiosa e desejosa. Porque é assim que evoluímos. Na biologia, o que para de se desenvolver morre, e a única coisa que cresce sem parar é o câncer. Na economia, desenvolver-se é bem diferente de crescer. Desenvolver é ganhar novas funções, novas competências e crescer é simplesmente multiplicar o que já existe, sem mudanças. E tudo isso, mais uma vez, culmina no nosso saudoso e admirável Humberto Maturana: depende das nossas escolhas.

No nosso sistema econômico atual, os especialistas usam índices e indicadores analíticos de crescimento para estruturar as políticas públicas, como o PIB, produto interno bruto que sintetiza a capacidade produtiva de um país. Me recuso a repetir que o PIB é o cálculo da riqueza de um País, porque definitivamente não acredito nesta redução do conceito de riqueza.

Amartya Sen, economista indiano que ganhou o prêmio Nobel de economia em 1998, levantou essa discussão em meados dos anos 90. No livro: desenvolvimento como liberdade, ele criou o conceito de graus de liberdade e dessa tese nasceu o IDH, índice de desenvolvimento humano, que leva em consideração além do crescimento econômico, a saúde, educação e distribuição de renda. Já que muitas vezes o balanço entre o crescimento econômico (PIB) e o resultado social gerado é negativo. Para Amartya Sen, desenvolvimento deveria ser medido pela expansão do grau de liberdade da população. Ou seja, pela capacidade do indivíduo de escolher por si só.

A discussão do Amartya Sen refletia uma visível desregulagem no processo evolutivo da humanidade. Ficamos tão focados na produção cada vez maior e mais rápida de bens, que esquecemos da nossa parte humana e adoecemos em pandemias sistemáticas e sistêmicas. Segundo o médico Ricardo Ghelman, presidente do Instituto Ghelman em São Paulo, a pandemia do final do século XX foi o câncer. Segundo o Our World In Data, o número de mortes por câncer passou de 5 milhões de pessoas mortas em 1990, para 9,7 milhões em 2017. Em 2019, segundo Vandana Shiva, ativista para a alimentação saudável, chegamos a 10 milhões de mortes por ano.

Em 2008, o Butão, um país pequenininho no sul da Ásia, declarou seu índice nacional de felicidade. No cálculo do índice estão incluídos: sustentabilidade e equanimidade no desenvolvimento socioeconômico (para que a balança entre crescimento econômico e impacto social sempre tenda ao positivo); conservação ambiental, preservação e promoção da cultura e boa governança. Ouvi diretamente da economista que viabilizou esse índice, Julia Kim, o conceito de felicidade que o Butão promove: servir aos outros, viver em harmonia com a natureza, ser capaz de compreender profundamente a nossa própria verdade, coerência (alinhar ação com pensamento), propósito. "A embodied happiness", o que significa uma felicidade que transborda o bem-estar superficial do consumo.

A felicidade não se produz, não se consome, não cresce infinitamente. No entanto, é tudo que se vende nas propagandas. Não é por menos, que desde 2020, a gente não consegue mais respirar. É tanta incoerência interna, um jogo contínuo de expectativas tão exacerbadas vindas de fora, seguidas de profundas e deprimentes frustrações. Sofremos de uma sobrecarga de funções não desenvolvidas, não sabemos lidar com a morte, não sabemos nosso propósito de vida, não lidamos com a natureza, nos recusamos a servir o outro (não estou falando de caridade), não sabemos nossas próprias verdades, muito menos escolher por nós mesmos. Se as doenças pandêmicas são reflexos dos comportamentos da humanidade, então a pandemia de hoje - que pelo mundo matou 1,8 milhão em 2020 e mais 400 mil até agora em 2021 nos pressiona o peito, nos tira o sabor da vida, nos tira o fôlego, nos acama e nos põe em solitárias, nos afoga num mar de falta de sentido.

No último 6 de maio, Humberto Maturana, biólogo chileno superpremiado, morreu aos 92 anos. Tive o privilégio e o prazer de assistir a uma aula ao vivo com ele em 2020. Muito calmamente Maturana falava do conceito de autopoiesis criado por ele, resumidamente é a capacidade de um sistema de se autoproduzir, de se autorregular como resposta aos inputs externos. E coerentemente ao Amartya Sen, Maturana enfatizava as escolhas, como significado da vida. Sem escolha, não há criação, não há vida. Ao meu ver nos encontramos num passo ainda anterior, qual o sentido das nossas escolhas?

ELISA CARLOS Em constante atualização, é empreendedora, engenheira, cozinheira, mãe Waldorf da Nina e da Gabi


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