Opinião

Debulhar a vida

Fisionomia de quem entoa uma canção que apenas o vento traduz


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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE (NOVA)
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Araguatins em Tocantins, antes Estado de Goiás, antiga Vila São Vicente do Araguaia, faz parte de suas memórias, assim como as plantações de arroz, feijão, milho... Há, ainda, os jacarés, arraias, os cascudos que eram pescados com as mãos e o boto rosa. Localiza-se na microrregião do Bico do Papagaio.

Na horta da Casa da Fonte - CSJ, sob a responsabilidade dela, começam a despontar: salsinha, couve, rúcula, chuchu, pimenta vermelha, erva-cidreira para o chá da tarde e, no pomar: limão, laranja para doce, banana, carambola, mamão, acerola, pitanga, manga... No caramanchão, as buchas dependuradas. Gosta mesmo é de ver os canteiros verdinhos, grávidos de verduras e temperos.

Enxada nas mãos para revolver a terra, os olhos com brilho e a fisionomia de quem entoa uma canção que apenas o vento traduz. Ivanilde da Silva Anjo, 49 anos, quatro filhos, dos combates e da sensibilidade. Enxerga fundo o que toca o coração das pessoas.

Interrompe-me e aponta, com orgulho, o filho que passa dentro da Estação de Tratamento de Esgoto - ETEJ. Foi aluno nosso e agora trabalha lá.

Os golfinhos fluviais, com os quais convivia no rio Araguaia, de coloração rosada, fazem parte do folclore brasileiro. A lenda diz que esse boto se transforma em um homem bonito, de boa conversa, galanteador, à procura de mulheres para seduzi-las. Usa um chapéu que esconde o topo de sua cabeça, com as narinas, pois a transformação é incompleta. Depois de engravidar a mulher, a abandona e volta às águas. Acreditando e desacreditando, quando o via nas águas, considerava melhor se distanciar.

Na sua Araguatins destacam-se até agora a produção agrícola: abacaxi, banana, cana-de-açúcar, coco-da-baía... Pacu, patinga, pintado, em meio a outros, são os peixes mais comuns. Mas o bom mesmo era jantar os cascudos, pescados com as mãos.

Encantavam-na as praias de águas doces do rio Araguaia em contraste com o verde da floresta Amazônica. Areias finíssimas e brancas. Atravessava o rio a nado para chegar até elas. Praia da Ponta, São Raimundo, Ilha de São Vicente, Cachoeira de São Bento, Paredão do Nego Velho, 20 metros de altura, de cujas pedras mina água cristalina.

Sua casa de infância era de palha, depois o pai construiu uma de barro. O banho no rio e a água para beber ia buscava numa cacimba. Mais tarde, conseguiram um poço.

Na Ilha de São Vicente há uma Comunidade Quilombola, descendente de escravos trazidos por Vicente Bernardino, fundador da cidade.

Conta, satisfeita, que ganhou as sementes de bucha e a esponja vegetal despontou com rapidez. Das frutas, pelo tom, surpreendem-na as acerolas e pitangas.

Convive com a casa de marimbondos em uma das árvores. Comenta que é a natureza e têm direito à sua casinha. É o lar deles. Um não mexe com o outro. Respeitam as diferenças e vivem em harmonia. Prefere plantar na horta e no pomar que em espaço com flores. Justifica: vê crescer, colhe e divide com gente.

Ignora as dificuldades em trabalhar na roça quando menina. Era próprio da realidade. Seu mundo. Foi embora com 16 anos para servir em casa de família.

Ama a terra porque tem vida e se faz vida, através do alimento, para pessoas diversas, o que lhe traz uma sensação maravilhosa.

Penso na parábola contada por Jesus sobre a Boa Semente (cf. Lucas 8, 4-8). Semente que cai em terra boa, desenvolve-se. Coração reto e generoso, como o dela, dá fruto pela perseverança.

Pergunto-lhe se a enxada não a incomoda pelo peso e ela me responde com outra pergunta, se a caneta, com que anoto o seu relato, me pesa. Conclui: "Quando se faz as coisas com amor e por amor, nada pesa". Lição de vida.

Faz jus à música "O Cio da Terra" de Milton Nascimento: "Debulhar o trigo/ Recolher cada bago do trigo/ Forjar no trigo o milagre do pão/ E se fartar o pão. / Decepar a cana/ Recolher a garapa da cana/ Roubar da cana a doçura do mel/ Se lambuzar de mel. / Afagar a terra/ Conhecer os desejos da terra/ Cio da terra, propícia estação/ E fecundar o chão".

Debulha a vida, dentre lutas e sacrifícios, sem perder a força da semente e a doce do mel.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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