Opinião

O Silêncio de D'us

Em todo adulto vigia uma criança. Uma criança eterna


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Wagner Nacarato
Crédito: divulgação

Estava no alto de uma montanha, no início do inverno europeu, quando a neve caiu leve e silenciosa, pela primeira vez, naquele ano. Ouvia em minha mente, com frequência, que D'us estava no silêncio. E assim, resolvi fechar os olhos para vê-lo.

Embora encantado com o silêncio do cair da neve sobre os pinheiros, meu corpo começou a congelar. Era, apenas, esperar.

E a espera surgiu, apressada, levando em seu braço uma cesta abarrotada com folhas secas. Quando me viu, me convidou a segui-la e sem questionar, procurei alcançar as marcas de seus passos, que se recolhiam na neve sobre o chão.

E aos poucos, meu corpo retornou à vida, aquecido pelo fogo de uma enorme fogueira. Crianças, homens, mulheres, gente de todo tipo, estavam reunidos, sentados num círculo, ao redor da chama aconchegante. Havia um lugar preparado para mim e, ao me acomodar, a noite chegou, rapidamente, excluindo do dia várias horas.

Uma mulher, já idosa, deu início a um canto ancestral. Seu refrão, seguido por todos, dizia "toda criança, ao nascer, traz, em si, um grande mistério para a humanidade".

À medida que o refrão ganhava força, a mulher da cesta, seguindo o ritmo da canção, lançava as folhas secas sobre o fogo que ardia. Sua dança, um transe profundo e enigmático, tal qual um portal, me adentrou a esferas até, então, desconhecidas.

Uma voz, que parecia de um pequeno garoto, trouxe a todos palavras, que para mim, eram de autoria de Cecília Meireles. Dizia ele "Cabecinha boa de menino triste, de menino triste que sofre sozinho, que sozinho sofre e resiste...Cabecinha boa de menino santo que do alto se inclina sobre a água do mundo para mirar seu desencanto. Para ver passar numa onda lenta e fria a estrela perdida da felicidade que soube que não possuiria."

E de súbito, com o rosto bem colado ao meu, o pequeno disse a mim, bem baixinho: "Sou Henry Borel". Com ele surgiram outras crianças que, também, foram se apresentando. Isabella. Eu,Bernardo. Muito prazer, sou Rhuan. Nicolas é o meu nome. Pode me chamar de Mel.

A dançarina, sem sua cesta, sentou-se com o grupo e, uma das crianças, possivelmente a Mel, aproximou-se dela com uma caixa bem antiga. A dançarina abriu a caixa com todo cuidado e retirou dela um livro, que parecia ser mágico, por ter uma estrela dourada em sua capa. Outra criança, por sua vez, apressou a dançarina para que começasse a leitura, pois, afirmava, ansiosamente, que não haveria muito tempo.

E ela, assim o fez.

"Em todo adulto vigia uma criança. Uma criança eterna. Algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa."

Neste momento, o fogo apagou-se. Uma escuridão profunda tomou conta de todos e só foi vencida, muito lentamente, quando perceberam que um brilho de luz habitava às profundezas dos olhos de todos.

Quando me dei por mim, estava deitado em minha cama, o dia amanhecendo. Ao sair do chalé que me servia de hospedagem, pude, observar, o que restou da fogueira, da noite anterior.

Recordei-me que aquele tipo de ritual antigo, que experienciei na noite anterior, teve seu início há mais de 7 mil anos antes de Cristo. No dia mais curto do ano, no último mês do ano, os povos celebravam a vitória da vida sobre a morte. Celebravam a vitória do Sol sobre a escuridão que vinha com o inverno. Celebravam na noite bendita o nascimento do Menino da Promessa, a semente de luz. E devo frisar, que tudo isto acontecia, antes de Cristo.

Somente no ano de 221 depois de Cristo, cravou-se, no dia 25 de dezembro, dia em que se comemorava o nascimento do deus persa Mitra, o Sol da Virtude, o nascimento do menino Jesus. Vivemos os anos de 2020 e 2021, como se tivéssemos mergulhados em um inverno duradouro.

Creio que Henry Borel e as outras crianças surgiram naquela noite, para abrir meus olhos à descoberta da criança dentro de mim, a fim de que eu renasça com ela, pura, alegre, livre em meus movimentos. Assim como será com a chegada da primavera.

WAGNER NACARATO é coordenador de cultura, professor e diretor de teatro


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