Opinião

A paróquia, o santo e a fé

A tradição se mantém através de gente, que acredita


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COLUNISTAS GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

Há um texto que me seduz do poeta Mario de Andrade no seu" Valioso Tempo Dos Maduros". Escreveu assim: "Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Um viver onde o maior prazer encontrado deva ser a alegria do convívio e não a mediocridade das aparências".

Este mal que nos punge e martiriza violento vírus que não se deixa vencer, nos impede de viver ao lado de gente humana, muito humana, que não foge de sua mortalidade.

Tanto àqueles que aqui nasceram como tantos outros que adotaram esta terra e sua filosofia de vida, sabem do que estou falando. Como nos versos do hino da cidade, da inesquecível professora Haydée, teus filhos amantes são de ti. A cidade conta com as vantagens de uma metrópole, e guarda no seu seio as virtudes de uma província. Jundiaí se diferencia de outras plagas, graças o esforço, trabalho e abnegação de comunidades, que transformam cada canto desta cidade num lugar de fé, amor e bondade. Seu calendário anual sempre foi marcado por festas beneficentes, que encantam a todos. A tradição se mantém através de gente, que acredita. Acredita no que faz. Esta convicção vem de dentro, veemente. Verdadeiros voluntários da bondade, não há cansaço físico, que impede seus arroubos de entusiasmo e alegria, no bem servir. Assim sempre começou a temporada da boa comida. A paróquia e a fé. O ser humano e a gratuidade de espírito. Tempo de espera para os prazeres de saborosos fins de semana.

Todos os anos, nesta época, vivíamos fins de semana festivos; nada é mais valioso e tão grande. Se sofrida, temos o bálsamo do amor. Se dura, o lenitivo da paz. Se triste, as cores vivas da alegria. No mistério, a felicidade de viver. Perdem-se nossas saborosas festas tradicionais, que tanto cativa nestes nossos bucólicos torrões. Comunidades que exalam os perfumados aromas da fé, amor e bondade. Realçam as fortes raízes da solidariedade. Creia que assim nasceram as festas do Caxambu, da Roseira, da Toca, as Luzes da Ponte, a italiana da Colônia, a portuguesa da Vila Arens, a Trezena do Anhangabaú, Cidade Nova e Corrupira, a Vicentina do Retiro, Eloy Chaves. A veneração sacra dos fiéis a São Roque, São Sebastião, Santa Rita de Cássia, São João Batista, Nossa Senhora da Conceição, do Montenegro, Santo Antônio, São Vicente de Paulo, São Roque. Bom Jesus e São Genaro. Além da italiana da Colônia, a da Padroeira de Nossa Senhora de Montenegro, as tradicionais do bairro da Terra Nova e da bucólica Varginha, as inúmeras e alegres festas juninas. Bastava estar numa destes encontros para sentir a palpitação de vidas individuais. Nelas não havia descrença nem lamúrias .Bastava estar numa destes encontros para sentir a palpitação de vidas individuais. Há brilho nos olhos e sorriso nos lábios.

Há inúmeras pessoas, melhor ainda, seres humanos, verdadeiros voluntários da bondade, impulsionados por uma corrente de solidariedade. Se não me equivoco, essa é a grande potência destes bairros de Jundiaí, e seria um tremendo erro deixá-la perder ou mudá-la para outra forma de convivência. Festivos eventos que se tornam inesquecíveis. Quero sim a canção da volta, quero sim estas festas de volta. Quero sim ao lado dos amigos colher na simplicidade do afeto, o alimento que ainda me resta. Na vida, não vale a pena viver para depois se arrepender. Fico com os Titãs, como espelho desta pandemia: "Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Devia ter arriscado mais, errado mais, ter feito o que eu queria fazer. Queria ter aceitado as pessoas como elas são..." Quando mais um capítulo for vencido, uma nova página será escrita em nosso livro da vida. Que se somem forças se for preciso, para começar tudo de novo. Talvez possam dizer que estou pintando estes tempos com cores carregadas demais. Meu pensamento único é enviar uma mensagem de otimismo e simpatia a todos. Precisamos com urgência, diante de nossos olhos, a beleza palpitante da vida.

GUARACI ALVARENGA é advogado


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