Opinião

Solidão, um presente que não gostamos de ganhar

A solidão é o momento em que nós podemos ser nós mesmos


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Jean Jacques-Rousseau, dono da frase "O homem é bom, a sociedade que o corrompe", entende que o ser humano é um animal coletivo. Nós nascemos para conviver em grupo pelo simples fato de que sozinhos jamais conseguiríamos sobreviver ao estado de natureza. Esse sentimento de colaboração, inerente ao humano, nos faz pensar que precisamos do outro e o outro precisa da gente, logo, a solidão passa a ser estranho a nós.

Nessa perspectiva, saber conviver no coletivo é uma espécie de vitória. Quem não gosta daquele sujeito que faz amizade fácil, que conversa com todo mundo, que não tem problemas em participar das dinâmicas sociais e que sempre está acompanhado?

Por outro lado, aquele que não consegue se enturmar, conviver no coletivo ou manter relações, ou é visto como vilão ou como coitado. Tudo isso porque, segundo a ideia de Rousseau, essa pessoa não possui habilidades de convivência e colaboração e, portanto, não consegue viver com o outro e por isso é isolada. Sabe aquele parente que prefere ficar no quarto do que no churrasco com a família?

Friedrich Nietzsche pensaria o oposto. Ele, que na fase derradeira de sua vida, seria o parente que prefere o quarto ao churrasco com a família, abordou o tema da solidão no livro "Aurora", publicado em 1881, 15 anos após ser diagnosticado com sífilis e de iniciar sua reclusão social. Nesse livro, que reúne mais de 500 aforismos, o filósofo alemão fala sobre a libertação do homem das amarras da moralidade construída por valores tradicionais. Mais ou menos uma grande indagação do "por que eu tenho que obedecer a isso ou aquilo?". Para ele, o homem precisaria se libertar e para alcançar a aurora de sua existência, seria preciso questionar todos os valores externos e olhar para dentro de si. E, para fazer esse exercício, era necessário ficar só.

Isso significa que a solidão é o momento em que nós podemos ser nós mesmos, pois, na ausência do outro, não precisamos nos preocupar como o outro nos vê, logo, é na solidão que podemos nos expandir. Você só consegue ser você quando você está só. Quando você está com o outro, você é aquilo que você quer que os outros vejam. No entendimento de Nietzsche, negar a solidão é replicar o comportamento do outro. E replicar o comportamento do outro é negar o seu próprio comportamento.

Elizabeth Neumann, filósofa conterrânea de Nietzsche, nos apresenta a teoria da Espiral do Silêncio. Essa teoria aborda a nossa tendência a nos calarmos em determinadas situações por medo do isolamento social. Imagina que você está em um grupo e todos, exceto você, acham que a tortura é algo bom. Você não concorda com isso, mas é o único na roda de amigos que pensa diferente. Segundo a teoria, você, com medo de ser isolado dentro do grupo, ou se cala perante ou acaba até concordando. Para aqueles que temem a solidão e o isolamento, a espiral do silêncio é quase que uma regra. Logo, sua individualidade vai escorrendo pelo ralo enquanto você se torna um produto replicante do grupo.

E essa massa homogênea passa a ser facilmente diagnosticada e previsível. Essa situação me lembra de um personagem do épico de Isaac Asimov, A Fundação. Hari Seldon, que praticava a psico-história (profissão fictícia do universo asimoviano), dizia que era capaz de prever o futuro olhando para o comportamento das massas. Para a psico-história, a massa age de maneira previsível enquanto um ser humano sozinho é imprevisível. E isso pode ser observado na vida real. Forças policiais já possuem inteligência para agir em caso de briga de torcidas organizadas, por exemplo, pois eles sabem como essa massa costuma agir.

Bom, você já deve ter entendido que a solidão não é necessariamente algo ruim. Pode ser, inclusive algo essencial para que você possa saber ser você mesmo e, no mais puro significado da palavra, ser indivíduo. Porém, algumas pessoas temem tanto a solidão que ao primeiro sinal dela, sacam o celular do bolso e se conectam com o mundo. Não as culpo, pois nunca fomos ensinados sobre a solidão. Para o senso comum, ser só é ser triste. Triste mesmo é você não saber se as suas escolhas, pensamentos e visão de mundo são de fatos seus ou se são do grupo que você faz parte.

Você quer ser quem você é ou quem você quer ser?Sugiro que fique só para pensar sobre isso.

Conhecimento é Conquista!

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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