Opinião

Antonio Gomes de Amorim (1935-2021)

Professor de Direito, conquistava os alunos por sua simpatia


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Jundiaí perdeu dia 12 de maio o desembargador Antonio Gomes de Amorim, uma figura reverenciada em inúmeros espaços. Foi juiz na comarca de Jundiaí por muitos anos. Além de ter sido sua primeira comarca, na condição de substituto, voltou para a 3ª Vara Criminal em 1969 e aqui permaneceu até 1980, quando promovido para a 23ª Vara Criminal da Capital. Era um julgador humano. Judicava com misericórdia, o que não é muito frequente. Era um pacificador. Apaziguava, harmonizava, dialogava.

Atraía legiões de amigos. Atuou durante bom tempo no movimento religioso "Cursilhos da Cristandade", introduzido na Diocese de Jundiaí pelo primeiro santo bispo, dom Gabriel Paulino Bueno Couto.

Professor na Faculdade de Direito, conquistava os alunos por sua simpatia e familiaridade com o tema. Todos se tornavam seus amigos. Por isso era frequentemente paraninfo, homenageado ou nome de turma.

Promovia inúmeras reuniões em sua deliciosa vivenda na Malota. Ali, ao lado de Regina, recebia amigos para encontros memoráveis.

Fui merecedor do privilégio de ser seu amigo e de conviver bastante com ele, com quem aprendi a ser mais paciente, tolerante e tranquilo. Quando fui designado para auxiliar na Comarca da Capital, era frequente usufruir de sua "carona". Ele era titular em São Paulo e ia todos os dias de carro de Jundiaí para lá. Passava em minha casa, no Jardim Morumbi e nem sempre a tempo de chegar no horário previsto. Ante meu nervosismo, brincava e dizia: "Na minha Vara, as audiências começam quando eu chego! Na sua é diferente?".

Não poucas vezes, parávamos num restaurante para um aperitivo e até jantar. Nessas ocasiões, o grupo era formado por Márcio Franklin Nogueira e o Dr. Jorge Luiz de Almeida. Este, abstêmio, tomava um guaraná. Nós outros, vários chopes. Na hora de dividir a conta, todos pagavam o mesmo. Às vezes argumentávamos com a injustiça de fazer o Dr. Jorge também entrar. Amorim, jocosamente, dizia que era a penitência por não consumir cerveja.

Mais de uma vez nossas famílias se reuniram em Itapema, no Estado de Santa Catarina, para passar a Semana Santa. Eram tempos em que o Judiciário interrompia suas atividades nesse período. Momentos gostosos, de confraternização, muita cantoria e o chalé de Regina e Amorim era sempre o ponto de encontro de toda a turma.

Ao tomar conhecimento de sua partida, o desembargador Antonio Marson postou no grupo dos magistrados aposentados um testemunho enternecedor: "Guardo eterna lembrança das excepcionais qualidades do Amorim: humilde, competente, trabalhador, alegre, devotado ao seu semelhante, a quem procurava atender em muitas das suas necessidades professor adorado por seus alunos, juiz e desembargador de notáveis méritos. Tenho para com ele gratidão eterna: foi ele quem me recebeu, na comarca de Jundiaí, como juiz substituto e me esclareceu dúvidas nas primeiras atividades naquela comarca, onde sobressaía como colega pacificador de tantas posições díspares e solução para inúmeras disputas em época tão conturbada como aquela de 1974. Foi para mim como um pai nos primeiros passos da carreira de magistrado".

Amorim foi essa figura paternal para todos os juízes que passaram por Jundiaí. Entronizou, junto com Jorge Luiz de Almeida, a praxe do trote ao substituto, numa audiência fake de interdição. Que terminava com um churrasco em sua casa, onde não podia faltar o virado à paulista, prato da esmerada cozinha de Regina.

Foi um parceiro quando, após presidir uma das mais concorridas "Feiras da Amizade", criação de Mercedes Ladeira Marchi, me ajudou a aceitar o desafio de presidir a próxima. Solícito, prestativo, disponível e bondoso. Raras qualidades reunidas num só exemplar humano, de primeiríssima qualidade.

Hoje, já se foram os grandes juízes de nossa terra. Duílio Nogueira de Sá, Edmundo Airosa de Assis, João Roberto Martins, Heliomar Pontes Saraiva, Onofre Barreto de Moura, Paulo Sérgio Fernandes de Oliveira, os promotores João Correa da Silva, Paulo Eduardo Nogueira Leitão, Adilson Rodrigues, Jorge Luiz de Almeida, em seguida notável desembargador.

Essa a crônica da saudade, que vai nos deixando cada vez mais tristes, à medida em que colecionamos perdas.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022

 


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