Opinião

O sol na cabeça

Publicado pela Companhia das Letras, o volume já está em sua 10ª reimpressão


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Livro do estreante Geovani Martins, "O sol na cabeça" reúne treze contos desse jovem escritor carioca nascido em 1991. Publicado pela Companhia das Letras, o volume já está em sua décima reimpressão, vendido para editoras de nove países, incluindo as gigantes Gallimard, da França, a espanhola Alfaguara, a alemã Suhrkamp, a chinesa Penguin Randon House, e a estadunidense Farrar. E os direitos já foram comprados para virar filme. Nada mau para o garoto que há menos de cinco anos não sabia o que fazer da vida. Martins nasceu em Bangu, bairro em que passou a maior parte da infância, e de onde se mudou para a Rocinha, na zona sul carioca, e mais adiante para o Vidigal, onde hoje mora.

As histórias, de enredo bem amarrado, circulam pelo Rio de Janeiro, de sua orla aos morros, protagonizadas quase todas por personagens jovens. Mas esqueça o "coitadismo" e seus similares, a condescendência e a comiseração, porque o exercício de Martins é outro. A começar pela linguagem impactante. O autor recheia de coloquialismos e gírias os contos, com a mesma verve com que salta para a língua canônica. A vivacidade dos diálogos, as tiradas de narradores e personagens parecem resultado não de inspiração, mas de depuração.

"O mistério da vila" é uma pequena obra-prima de delicadeza e refinamento. Passada na rua Araruama da infância do escritor, conta a história de dona Iara, uma mãe de santo execrada como bruxa, mas de cujo poder e ajuda a comunidade ao redor usufrui. "Dona Iara parece mesmo uma santa quando o dia é claro: bem pretinha, bem velhinha, os olhos cor de mel. Se transforma de noite, com o cheiro, com o vento, com tudo rangendo na vila." Três garotos muito amigos têm tanto medo quanto curiosidade a respeito de tal personagem, cuja força e solidariedade beneficiaram muitos (alguns deles convertidos a religiões que condenam tais práticas e crenças). O andamento e o desfecho do conto surpreendem. Assim como surpreende "Roleta russa", em que um garoto "toma emprestado" o revólver do pai vigia para brincar de polícia e ladrão com os amigos de rua. A palavra empenhada pelo filho e a certeza da decepção causada no velho impulsionam a história, cujo desfecho obviamente não quero adiantar. Em "Sextou", o protagonista vai buscar um bagulho durante uma "sexta-cheira" e depara-se com o local inesperadamente deserto. Alheio a dois alertas que moradores lhe dão, cai na arapuca do achaque policial. Trama bem arquitetada, assim como a de "Travessia", em que um jovem vacila no seu trabalho e deve aguentar as consequências, ou de "A viagem", no qual quatro amigos vão curtir a passagem do ano em Arraial do Cabo, no litoral fluminense. Ou ainda "Primeiro dia", que conta a chegada de André, aluno repetente e mais velho, para encarar as novas escola e turma.

O texto de Martins não dá pinta de ter brotado por acaso, mas resultar de muita procura, tentativas e reescrituras. Em entrevista a um semanário de circulação nacional ,o escritor fala que tamborilou os contos numa pequena máquina de escrever, presente da mãe e do padrasto, depois que o computador pifou. O caminho da Literatura apareceu em meio a trabalhos ocasionais: foi chapeiro de lanchonete, garçom em bufê infantil, homem-placa. Tendo estudado até o oitavo ano, mas desde sempre um leitor faminto, Martins pensou seriamente na escrita depois de ter faturado prêmio em um concurso literário regional. Acompanhou evento paralelo na Festa Literária de Paraty (Flip) e foi cada vez mais tomando gosto pela coisa. Um de seus contos ainda inédito em livro chamou a atenção do escritor Antônio Prata, que o indicou para editor da Companhia das Letras. Bingo! Contrato assinado, "Sol na cabeça" foi lançado em março de 2018.

O garoto que acompanhava os gibis da Turma da Mônica sempre curtiu boas histórias. Diz que chapou quando encontrou o cronista Drummond de Andrade e o romancista Machado de Assis, duas de suas maiores referências.

Agora colunista de "O Globo", o autor pode ser acompanhado em artigos no grande jornal carioca. Salve, Geovani Martins, talento da nova geração da literatura brasileira.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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