Opinião

Alimento por afeto

O autoconhecimento é fundamental para a liberdade


ALEXANDRE MARTINS
ALEXANDRE MARTIN ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Sempre existiu, no mundo, uma parte invisível que sustenta aquilo que é visível. Existe uma parte energética que coordena a função de tudo que é material e palpável.

Assim sendo, é natural que todos os objetos do mundo tenham o seu equivalente energético e a sua parte simbólica, com funções que vão além das suas óbvias utilidades do cotidiano.

Um dos exemplos mais interessantes disso é a comida; a utilidade ordinária da comida é fácil de ser observada: ser digerida, fornecimento de energia (química e térmica) para nosso corpo e depois ter seu resíduo eliminado sem maiores problemas. O que eu desejo enfatizar, contudo, é a existência de um outro tipo de energia estimulada pela comida, mais sutil, porém com a capacidade de mudar nossos hábitos, tanto que um desequilíbrio nesta relação alimentar contribui para surgir problemas de saúde como bulimia, anorexia e mesmo obesidade.

Quando estamos cansados, desamparados ou mesmo solitários e comemos algo que nos remete a uma situação boa, circuitos do cérebro são ativados e neurotransmissores do prazer e do acolhimento (dopamina, por exemplo) são liberados levando para longe os pesados sentimentos de mal-estar. Os norte-americanos têm até um nome específico para esse tipo de comida: comfort food.

Da mesma forma, no corpo etérico, processo semelhante ocorre com a interação da nossa energia com a da própria comida: todo alimento carrega em si uma carga etérea, que faz ressonância com a energia que corre nos meridianos. Por isso temos ocasionalmente necessidade de comer determinado sabor ou de sentir determinado aroma: estamos respondendo à demanda de um corpo que busca o seu equilíbrio.

Quando a energia de alguns órgãos é drenada porque temos um descontrole emocional ou porque estamos em um ambiente tóxico que nos desgasta, é comum que a energia do baço (em chinês pi) entre em desequilíbrio com o fígado e vesícula (hun e dan, respectivamente). A fim de recobrar esse equilíbrio o baço solicita que seja "re-energizado" pelo tipo de comida que faz ressonância com a sua própria energia: alimentos de sabor doce, derivados do açúcar e carboidratos.

A estratégia instintiva funciona bem a princípio e sentimos prazer, livramo-nos do peso existencial que a estagnação de energia nos impõe. Isso provoca um reforço positivo da ação, fazendo que a busquemos como recurso para os desafios que naturalmente irão ocorrendo no cotidiano. Passamos, então, a comer para nos nutrirmos de calma, nos alimentarmos de afeto, de carinho e deixamos de comer por fome genuína.

Logo, por mais que insistamos, a estagnação não se desfaz por completo com o fornecimento da energia para o baço e nos tornamos escravos de um ritual, agora sem nenhum sentido para o bem-estar. Nosso humor se torna instável e passamos a nos comportar de forma explosiva, mesmo com assuntos do cotidiano. Normalmente insistimos na estratégia de comer, mesmo fora das refeições regulares, tornando o fornecimento de energia mais errático e indiretamente contribuindo para a estagnação: o que antes ajudava agora atrapalha o quadro geral.

O processo começa a ser repetido em quantidade e tamanho progressivamente maiores para que se sustente: está feito então o caminho para a compulsão alimentar.

Que fique aqui um alerta: temos a tendência de achar que pessoas que se encontram nessa situação o fizeram porque assim escolheram e sair da mesma é somente uma questão de "força de vontade". A verdade é que elas não se apercebem o quão influente uma compulsão pode ser, com que facilidade ela pode contaminar nossa autonomia em todos os aspectos da nossa vida e, quando se apercebem desse fato, já se encontram presas. Compulsões são doenças e precisam de tratamento, pois dificilmente a pessoa sairá desse ciclo vicioso sozinha, não importa o quanto de vontade venha a ter.

Fica aqui a nossa reflexão quinzenal: ao fazermos algo tão comum como comer, o fazemos por uma necessidade física (fome) ou para cumprir um ritual em busca de energias que foram escassas ao longo do nosso dia, como acolhimento? O autoconhecimento é fundamental para a liberdade. Fiquem bem, até a próxima!

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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