Opinião

Positividade tóxica

O sofrimento humano fica relegado a um canto solitário de nossas experiências


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Em épocas de caos psicológico tenho visto agigantar-se um montante importante de terapias e teorias alternativas sobre saúde mental. Aliás, o termo saúde mental passou a significar um compêndio de coisas enroladas e estapafúrdias. A suposta saúde mental foi usada até como desculpa para aglomerar e para furar o isolamento nos piores momentos de toda esta crise sanitária.

A Organização Mundial de Saúde assegura que não existe nenhuma definição oficial sobre saúde mental, já que esta é sempre influenciada pelas diferenças culturais e pela subjetividade. Na verdade, esse conceito é tão particular como nossas digitais. Para cada um há um ponto de saúde e equilíbrio tanto físico quanto mental, um estado totalmente intransferível, cuja experiência pode ser contada, mas não imitada.

No que toca a busca de equilíbrio mental e felicidade essa idiossincrasia cria dificuldades para que encontremos o que nos faz bem, pois tendemos erroneamente a olhar a felicidade e o equilíbrio do outro como algo que nos serve. Porém, nem toda roupagem cai bem a todos os seres. Tudo que tange o humano não tem receita de bolo, exige esforço, choro, vela, investimento psíquico e financeiro.

Tendo em vista essa particularidade, abre-se um vazio no qual as várias teorias sobre possíveis equilíbrios entre mente e corpo, sujeito e ambiente, sujeito e cultura, e espiritualidade correm desenfreadas, criando um amplo caos mental e principalmente uma obrigatoriedade nos indivíduos de disfrutarem de alguma forma de bem-estar.

Não obstante, não podemos nos esquecer que a busca pelo equilíbrio envolve poder suportar que os estados de equilíbrio não são permanentes. Inclusive, a pandemia tem sido um exercício doloroso de aprendizagem sobre a impermanência das situações.

Juntamos a isto, outros conceitos tão valiosos à contemporaneidade, como o de felicidade e sucesso profissional que aplastam os sujeitos em estados depressivos e irracionais. O imperativo contido no lema do neoliberalismo: "Seja feliz, equilibrado e bem-sucedido a qualquer custo" arrasa as mentes menos reflexivas, que o tomam com um pragmatismo irrevogável. Felicidade e sucesso profissional são relativos a cada um de nós e muito, mas muito impermanentes.

E neste ponto, aquilo que deveria ser positivo em muitas práticas ditas terapêuticas se torna um martírio obsessivo para algumas pessoas. Se você não está feliz é porque não meditou, não rezou, não fez terapias, não constelou, não foi grato o suficiente, não conservou a natureza, não entendeu seu carma e etc. Ordens, imperativos e esculachos que são percebidos no psiquismo como fracasso e desânimo. Se não se pode atingir este estado de igualdade e constância, tão estranho ao humano, é porque algo se fez de errado. Isso é simplesmente enlouquecedor, tóxico, depressivo, quiçá letal.

A esse movimento damos o nome de Positividade Tóxica. Esse compêndio de ideais que nem sempre levam as pessoas a um autoconhecimento, mas sim acabam por criar um fluxo infindável de obrigações dirigidas falsamente para o bem de si mesmo e do coletivo.

Sem embargo, o mais grave que se pode observar nessa onda é que algo tão genuíno como o sofrimento humano fica relegado a um canto solitário de nossas experiências. Em tempos pandêmicos sobram situações de sofrimento, infelicidade, preocupação e desequilíbrio. Aos mais atentos, durante os últimos meses, era simples observar nas redes sociais as manifestações maníacas de alegria, enquanto os hospitais estavam abarrotados de doentes e corpos. Esse comportamento dito positivo é realmente relevante se levar em consideração que há aí algum sofrimento, um esforço, um risco e uma aprendizagem. Não é necessário uma apologia do sofrimento, só é preciso que ele apareça, que passe pelos corpos gerando um incômodo e que seja elaborado de alguma forma saudável. Tenho certeza de que muitas das taças de vinho postadas no Instagram foram sorvidas com lágrimas, preocupações e uma imensa vontade de anestesiar o peito que ardia de medo dos acontecimentos. É preciso falar disto e não calar este momento com rituais e meditações forçadas.

Afinal, estamos numa pandemia, isto lhes parece pouco?

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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