Opinião

Vai-se muito de nós

Mortes poderiam ter sido evitadas com sensibilidade mínima e competência


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

As seguidas mortes de pessoas queridas ou que, de qualquer forma, fizeram parte de nossa vida, levam um pouco de nós. Na verdade, levam muito. São parâmetros, são referências, são presença permanente na memória e farão falta.

É impossível deixar de lamentar a morte de Bruno Covas. Faixa etária em que estão meus filhos. Tive inúmeros contatos com ele, pois sempre esteve na vida pública. Mais proximamente, quando foi secretário do Meio Ambiente de São Paulo e, depois, como vice-prefeito de João Doria.

Educado, sorridente, discreto. Como se disse, estava no auge. Haveria muito ainda a ser feito. Partiu. Como acontece entre os humanos, logo será memória remota. Só os pais é que perseverarão no culto amoroso.

Senti imensamente a morte de Eva Wilma. Ela era uma imagem linda, que aprendi a admirar desde o "Alô Doçura", que fazia com John Herbert na TV Tupi, nos primórdios da televisão brasileira.

Quando presidi a 14ª Feira da Amizade em 1982, tivemos a ideia de convidar artistas e celebridades para servirem refeições e destinarem as gorjetas às entidades assistidas pelo evento. Havia muita gente que frequentara Jundiaí durante a adolescência, como Toni Ramos, que talvez aceitasse o convite. Afinal, era para sustentar organizações que atendiam aos carentes de todo o município. Consegui a promessa de Elis Regina, à época vivendo com Samuel McDowell, irmão de Dolores, que era casada com meu amigo-irmão Paulo Marcos Eduardo Reali Fernandes Nunes. Mas Elis morreu logo em janeiro! Não chegou a participar da Feira da Amizade em setembro.

A única resposta que se concretizou foi a de Eva Wilma que, junto com Carlos Zara, permaneceu um dia todo conosco no Parque "Antonio Carbonari". Feliz, sorridente, posando para fotos, assinando autógrafos. Numa doação espontânea e de extrema simpatia.

Encontrei-me com ela outras vezes em São Paulo e ela se lembrava dessa ocasião e dizia que fora uma ótima experiência. Dizia: "Por que não me chamaram mais?".

Esta semana perdemos mais dois magistrados, além do querido Antonio Gomes de Amorim. Luiz Benedicto Ferreira de Andrade e Paulo Marcos Vieira. Junto, despediu-se da vida o grande fotógrafo German Lorca. Fotografou mais de uma vez os imortais da Academia Paulista de Letras.

Também entristeceu-me a morte do professor Ubiratan D'Ambrosio, (8.12.1932-12.05.2021). Era doutor em Matemática pela Universidade de São Paulo desde 1963 e professor emérito da Unicamp. Desde 1959, era docente da Unesp em Rio Claro.

Atuante em diversos programas de pós-graduação, entre eles o de Educação Matemática do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp, Campus de Rio Claro. Produziu obras respeitadas em História e Filosofia da Matemática, História e Filosofia das Ciências, Etnomatemática, Etnociência e Educação Matemática. Ele abriu espaço pioneiro para diversas áreas de pesquisa nessas áreas. Em 2001, foi laureado pela Comissão Internacional de História da Matemática com o Prêmio Kennedy e em 2005 recebeu a medalha Felix Klein. Seu legado científico é incontestável e impactará as gerações vindouras.

Tive o privilégio de estar com ele em bancas de qualificação e de mestrado e doutorado na USP e na Unesp. Vi que, além de orientar científica e tecnicamente seus orientandos, era uma pessoa sensível, gentil, alegre, dono de singular empatia. Carismático, influenciou a vida dos que tiveram contato com ele e puderam haurir a benevolência de seu coração generoso.

A coleção de perdas vai se avolumando. Simultaneamente ao desaparecimento de tantas vítimas da covid-19, cujas mortes poderiam ter sido evitadas houvera uma sensibilidade mínima e uma competência mediana por parte de quem é pago pelo povo para gerir a coisa pública.

Acrescente-se ao momento sombrio a continuidade de ataques a populações civis. Impressionou-me a notícia ao vivo do bebê de cinco meses, único remanescente de uma família dizimada por bombardeio. Perna fraturada, equimoses por todo o corpo, não podia sequer tomar mamadeira, porque sua garganta estava em chagas.

Tais ocorrências não fazem presente a promessa do Apocalipse, o sinal do fim dos tempos, tudo mais próximo com a empreitada exitosa dos que destroem a natureza no campo macro e no micro?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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