Opinião

Suicídios e pandemia: marcas, lutos e desafios

O suicídio revela a exclusão psíquica levada ao limite


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MARGARETE ARILHA NOVA
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O título deste texto revela o Tempo de Debate que será realizado hoje, no âmbito do NEPO - Núcleo de Estudos de População Elza Berquó. Não quero desconhecer o fato de que é justamente nesta data que o referido Núcleo da Unicamp celebra seus 39 anos. Sob a batuta de instigantes e desbravadores pesquisadores e estudiosos, brilhantes em sua forma de conhecer, em especial sua fundadora, a demógrafa Elza Berquó, marcante presença no cenário nacional e internacional, vem marcando história em sua forma de produzir conhecimentos inovadores, articulando sempre suas produções em diálogos públicos abrangentes e especiais. Desde 2017, a pesquisadora Elza Berquó, que até hoje inspira seus colegas, alunos, seguidores, anunciava com cautela, mas de forma contundente, como é de seu perfil histórico de vida, que o suicídio vinha se instaurando nas sociedades de maneira crescente, e que esse fenômeno deveria ser melhor compreendido. Algo deveria ser feito. Desde então, o Núcleo não deixou de olhar para a problemática, estudando seus compassos e descompassos, suas marcas e sinais.

Particularmente seu crescimento entre os jovens assusta o mundo. Um mundo que vem se empobrecendo, se radicalizando nas desigualdades sociais e globais, retrato maior das sociedades capitalistas e contemporâneas. Mas que tem contornos facilmente desenhados por sexo, raça/etnia, idade revelando de que são marcas. O suicídio é, de fato, um sintoma social e como tal vimos configurando-o. Nossa visão específica é a de não considerá-lo como uma psicopatologia. Não como uma doença mental, que deve ser controlada ou tratada, jargão tão comum nas esferas médicas, mas sim como um retrato metafórico de um sofrimento psíquico, que atinge imensas parcelas das sociedades. O suicídio revela a exclusão psíquica levada ao limite.

Escrito como ato verdadeiro e radical, expressa a impossibilidade de manutenção da vida de exclusão. Ou do afeto na vida familiar ou na vida da comunidade ou na vida social. O fato de que, diante da epidemia do coronavírus, os níveis de suicídio neste primeiro ano se reduziram, no Brasil e no mundo, mostra que estamos mesmo diante de um fenômeno sócio-psíquico-cultural. A grande questão que fica é: qual a configuração dos suicídios que seguiram ocorrendo? Quais foram os remanescentes? As explicações são ainda apenas hipotéticas. Provavelmente uma das mais importantes seja o fato de que num primeiro momento a epidemia se institui como uma crise sanitária e não como uma crise econômica, o que pode ter evitado o incremento nas taxas. Outra possibilidade é a de que foram mantidos apenas os suicídios que efetivamente associados a quadros graves, previamente instalados. De toda forma, isso revela que há um montante do volume de suicídio que pode ser reduzido.

No entanto, o que é preciso destacar é que o sofrimento psíquico de todos está incrementado e não deve ser naturalizado. Com covid ou sem covid, com antecedentes psiquiátricos, mas também e especialmente sem antecedentes. Especialmente as mulheres, agora gestoras da vida produtiva e reprodutiva num mesmo território - o da casa - e, cuidadoras de si mesmas e de suas famílias e comunidades, ou até mesmo atuando na qualidade de profissionais de saúde e de educação, vêm se deparando com uma carga adicional de angústias. São turbulências psíquicas que se alinham no universo cotidiano, e que muitas vezes nem tem espaço para serem expressadas. A dificuldade para compartilhar dores e processos de lutos, quer seja de mortes efetivamente presenciadas e vividas, quer seja de projetos de vida, as perdas familiares e coletivas que se nos apresentam, são motivo para compreender e tentar criar processos de elaboração psíquica. Profissionais de saúde estão sendo focos de atenção porque foram expostos severamente a estresse em suas condições de trabalho, o que pode ter funcionado como gatilho importante, como talvez tenha sido o caso de Diadema, 2020. Qual o papel das políticas públicas para sanar sequelas psíquicas desta epidemia?

MARGARETH ARILHA

é psicanalista e pesquisadora do

Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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