Opinião

Só sei que nada sei

O jeito que nós olhamos para nós mesmos reflete como olhamos o mundo


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Não saber é uma das formas mais importantes para aprender. Tudo o que vivemos é parte de um aprendizado maior. Todas as situações que vivemos são oportunidades, uma doença, uma relação afetiva boa ou ruim, um trabalho de sucesso ou fracasso. Aprender a aceitar, a se desculpar, a evoluir, a dar passagem... Até a cura às vezes vem do simples ato de olhar-nos conscientemente para aquilo que nos adoece. Na antroposofia a dor é uma consciência ativa em um lugar em que deveria estar inativa. Um alerta! Quanto tempo faz que não olhamos para nós mesmos sem nos julgar, sem tanta crítica? O jeito que nós olhamos para nós mesmos reflete o jeito que olhamos o mundo, reflete o jeito que lidamos com o dinheiro, com negócios, com a economia.

A única coisa que temos controle é a nossa reação. Viktor Frankl, neurologista, psicólogo, filósofo criou a Logoterapia, um tipo de psicoterapia baseada na motivação humana pela busca do sentido da vida. O cara sobreviveu aos campos de Auschwitz, ali observou o comportamento humano no seu momento mais desumano e chegou à seguinte conclusão. Não temos controle de absolutamente nada do que acontece fora da gente, e dentro da gente temos o controle-chave da nossa reação. Quando controlamos nossa reação, aí sim, o mundo se readapta. E é só nesta janela, segundo Frankl, que somos livres. Todo o resto pode ser tirado de nós. Ao olharmos com atenção para as nossas reações, aprendemos.

Marshall Rosenberg, psicólogo americano criador da comunicação não-violenta, conta uma história que aconteceu em algum metrô pelo mundo. Ao parar numa estação, entram no vagão, um pai e três crianças. As crianças começam a fazer um estardalhaço no trem, muita gritaria, pulando em cima das cadeiras. Todos ficam bem incomodados até que alguém resolve pedir que este pai controle seus filhos. O pai então diz: "É! Eu deveria fazer alguma coisa mesmo, a mãe deles acabou de morrer, e é essa a forma que eles estão lidando. Eu não sei como lidar, imagino que eles também não saibam".

Por que sempre pensamos o pior daquele que nos incomoda? Por que a gente sempre assume que o outro está bem, e quis nos fazer algum mal? O cara que nos fechou no trânsito, o correio que atrasou, a comida errada no restaurante. A violência é uma necessidade não atendida. Qualquer violência, até a violência de um pensamento. E lá no fundo, todos nós somos violentos em algum nível. Uma resposta violenta é uma resposta de alguém que sofre. Assim como uma resposta de compaixão também é uma resposta de alguém que sofre, mas dessa vez, legitima o sofrimento do outro, assim como legitima o seu próprio.

Aprendi com Goethe que existe um olhar que não julga: o curioso. A metamorfose Goethiana convida o observador a olhar o objeto com curiosidade, uma planta por exemplo. Goethe fala para desenharmos essa planta, atentando para cada detalhe, ignorando a nossa pré-concepção. Normalmente quando alguém nos pede para desenhar alguma coisa, nos pomos a desenhar aquela imagem já resolvida na nossa cabeça. Nem que o objeto esteja à nossa frente, não olhamos para ele e mesmo assim desenhamos. O julgamento é o resultado da comparação do objeto que observamos com o objeto pré-concebido e então classificamos: bonito, feio, torto, rápido, devagar, faltando pedaços. Ao ignorar nossa pré-concepção, e nos aprofundarmos no olhar de fato, calmo, lento algo vai se transformando dentro de nós.

Eu sou cozinheira e antes de cozinhar sempre tiro uma cartinha do Oráculo do Pão, para me inspirar. E lendo a história da criadora deste oráculo, Magui, eu me deparo com uma frase que já escutei em vários outros lugares: "tudo o que se faz com presença e dedicação vai aos poucos se revelando para nós". É disso que Goethe está falando, é disso que Otto Scharmer (professor do MIT) também fala quando comenta que ao contemplarmos uma situação descobrimos muitas coisas escondidas. Isso é aprender. É dar espaço, vazão para que o objeto se apresente, para que o outro se apresente.

O que isso tem a ver com as novas economias? O homus economicus (conjunto de comportamentos de consumo considerados padrão, no qual as políticas econômicas são baseadas) está sempre aprendendo, se transformando. É uma tendência mundial que as relações comerciais sejam mais empáticas, mais curiosas, menos apegadas, mais sábias.

ELISA CARLOS. Em constante atualização, é empreendedora, engenheira, cozinheira, mãe Waldorf da Nina e da Gabi


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