Opinião

Reconheçamo-nos vulneráveis

Estaremos tão vulneráveis que não conseguimos desatar os nós?


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Estes dias sombrios devem ao menos reforçar a nossa convicção de que somos extremamente vulneráveis. Quase meio milhão de mortos nos lembram que a vida é um liame frágil e efêmero. Ainda inexplicável o surgimento, a causa e a letalidade de um micro vírus que está mudando a face da Terra. Nada permite uma trégua a nossa aflita apreensão. Ao contrário, notícias sobre a ineficácia da vacina em relação aos mais idosos só consegue nos deixar ainda mais angustiados. Será que isso nos tornará mais humildes?

Tempos assim reclamam ousadia em superdose, cabal apreensão do que significa o surrado verbete "resiliência" e vontade de superar a fase interminável de infortúnios. Porém, o que significa viver com ousadia?

Empresto de Brené Brown, autora do livro a coragem de ser imperfeito, a frase de que se serviu no seu prólogo: "Não é o crítico que importa; nem aquele que aponta onde foi que o homem tropeçou ou como o autor das façanhas poderia ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que está por inteiro na arena da vida, cujo rosto está manchado de poeira, suor e sangue; que luta bravamente; que erra, que decepciona, porque não há esforço sem erros e decepções; Mas que, na verdade, se empenha em seus feitos; que conhece o entusiasmo, as grandes paixões; que se entrega a uma causa digna; que, na melhor das hipóteses, conhece no final o triunfo da grande conquista e que, na pior, se fracassar, ao menos fracassa ousando grandemente".

Isto foi o que Theodore Roosevelt pronunciou na Sorbonne, em 23 de abril de 1910, e que foi chamado o discurso "cidadania em uma República".

Essa conclamação parece servir aos brasileiros do fatídico ano de 2021, ano em que tem sequência a deliberada política de programada destruição da floresta amazônica, extinguindo o valioso patrimônio de nossa biodiversidade, muito antes de conhecer o seu potencial. Criminoso desperdício de um futuro o que poderia ser auspicioso, não foram cegueira cruel dos que têm de serem responsabilizados pelo ecocídio.

Estaremos tão vulneráveis que não conseguimos desatar os nós que nos imobilizam e nos deixam inertes, estupefatos e aparentemente imbecilizados? Onde foi parar a coragem cívica, o heroísmo e uma patriótica reação ao projeto de lesa nação e de nefasto sepultamento do futuro? Era tão insignificante o nosso estoque de ética para reagir ao absurdo?

Nossa vulnerabilidade não nos impede de compreender a necessidade de enfrentar situações de risco. Como ensina Brown, "vulnerabilidade não é fraqueza; e a incerteza, os riscos e a exposição emocional que enfrentamos todos os dias não são opcionais. Nossa única escolha tem a ver com o compromisso. Vontade de assumir os riscos e de se comprometer com a nossa vulnerabilidade determina o alcance de nossa coragem e a clareza de nosso propósito. Por outro lado, o nível em que nos protegemos de ficar vulneráveis é uma medida de nosso medo e de nosso isolamento em relação à vida".

Não nos é dado aguardar que as coisas ocorram sem a nossa participação. Não somos espectadores do espetáculo da vida. Somos atores. Somos protagonistas. Miserável papel aquele desempenhado por quem assiste à derrelição dos valores sem a hombridade de opor resistência ao descalabro.

"Onde estava você em 2021 e o que fazia para que a sua pátria conseguisse honrar o seu passado de glórias? Qual foi o seu papel diante das mentiras, da desfaçatez, do opróbio, da irresponsabilidade, da vassalagem dos áulicos, sempre a aplaudir as mais nefandas infâmias?"

São perguntas que poderão surgir, não agora, enquanto a pira ardente aniquila pruridos éticos e relativiza o asco, pois o ambiente putrefato pode contaminar o olfato moral e fornecer a sensação de que tudo continua igual e que nada mudou.

Haverá um dia em que a nação readquirirá condições de higidez psíquica suficiente a reavaliar a sucessão de atentados contra o bem, a verdade, o justo, aquilo que vale realmente a pena. Será o dia do acerto de contas e da ressignificação de comportamentos ambíguos. Vulneráveis, sim. Covardes jamais.

Como será o seu testemunho para o tribunal da verdade de sua consciência?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras, 2021-2022


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