Opinião

Coração com flores

Santa Isabel de Portugal era considerada a Rainha da Paz


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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE (NOVA)
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Passado e presente se confundem no que carregamos de histórias e vivências. É pelo passado que Santa Isabel de Portugal chegou até mim.

Meu avô, Benedicto Castilho de Andrade, construiu, em 1894, como tributo de amor, no Cemitério Nossa Senhora do Desterro um jazigo para seus pais: João Nepomuceno de Andrade (1810-1893) e Angélica Rosa de Souza Castilho (1854-1871). Minha bisavó faleceu de varíola com o filho recém-nascido. No túmulo, a imagem de Santa Isabel de Portugal.

Isabel de Aragão, esposa de Dom Dinis de Portugal, filha mais velha do rei Pedro III de Aragão e Constança de Hohenstaufen, princesa da Sicília. Viveu aproximadamente do ano 1282 até 1336. Padroeira da cidade de Coimbra e, no Brasil, de duas cidades em Minas Gerais e uma no Pará. Creio que a escolha, de nosso avô, se deveu aos Andrades serem de origem portuguesa e os Castilhos de espanhola, mas alguma devoção a ela, por parte do filho, ou mesmo do pai, deveria haver.

De seu casamento teve dois filhos: Constança e Dom Afonso IV. Era considerada Rainha da Paz. Conseguiu serenar, dentre outras situações, um conflito entre D. Afonso, seu filho, com um filho bastardo de Dom Dinis, Afonso Sanches, que era o preferido do pai na sucessão.

Ao morrer D. Dinis, em 1325, Isabel teria peregrinado ao santuário de Santiago de Compostela e ofertado muito dos seus bens pessoais, como sua coroa e joias. Recolheu-se por fim ao Mosteiro de Santa Clara, onde está sepultada, em Coimbra, vestindo o hábito da Ordem das Clarissas, mas não fazendo os votos, o que lhe permitiu manter a sua fortuna usada para a caridade.

Muito piedosa e dedicada às causas da misericórdia, cuidava de pobres e enfermos, passava grande parte do seu tempo em oração e ajuda aos pobres. Foi canonizada pelo Papa Urbano VIII em 1625.

A história mais popular da Rainha Santa Isabel é a do milagre das rosas. Teria ela saído do Castelo de Leiria, numa manhã de inverno para distribuir pães aos mais desfavorecidos. Surpreendida pelo soberano que lhe inquiriu aonde ia e o que levava no colo, a rainha teria exclamado: "São rosas, Senhor!" Desconfiado indagou: "No inverno?" Isabel expôs então o conteúdo do regaço de seu vestido e neles havia rosas, em vez dos pães que ocultara.

Em 1987, nosso pai foi sepultado nesse túmulo e neste ano a mamãe. Reformado, ficou pronto na semana passada. O luto tem fases, como sempre me lembra o querido padre Márcio Felipe, e essa foi a de observar a placa com o nome dos dois e, no meio, a foto. Sem dúvida me emocionei. Que bom esse sentimento que mistura o passado com o presente para se tornar apelo; apelo para transformar em rosas o que se possui. Nossos pais eram assim. Recordo-me do reencontro, com nosso pai, pelas ruas da cidade, de diversos egressos da cadeia de Jundiaí, que se localizava onde é o Fórum e de quem ele comprava a produção de trabalhos em cerâmica. Era uma alegria dos dois lados e o papai fazia questão de pagar um café e saber como estava a vida. A mamãe é de presença mais recente. Partilhou os conhecimentos que possuía com aulas em diferentes bairros, principalmente voltadas para os que mais necessitavam de aprendizagem e ternura. Inúmeras fotos tenho dela inclinada para ensinar. Pais de mãos dispostas a repartir; pais preciosos.

Levei quatro meses, juntamente com a Áurea Marcelino, que nos assessora, para abrir os armários e gavetas de nossa mãe e transformar seus pertences em doação. Um sentimento de amarras, como se reter a bagagem a tornaria mais presente. Conforme me disse o nosso querido bispo diocesano, Dom Vicente Costa: "Mas a lembrança dela fica para sempre viva e renovada, pois ela não se prende a coisas materiais, não é mesmo?"

Sábado passado fui ao cemitério para plantar nas jardineiras. Flores de cores diversas e resistentes ao ar livre e sementes. Calandivas e Beijos. Eles espalharam flores e sementes nos caminhos dos filhos.

A memória de nossos pais está bem adequada sob a imagem antiga de Santa Isabel com rosas nas dobras da roupa. Somente o amor dá sentido à vida e salva da morte.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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