Opinião

A CPI da Covid

O SUS pode vacinar 3 milhões de pessoas por dia, 60 milhões por mês


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Miguel Haddad
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Segundo o professor Gonzalo Vecina Neto, fundador da Anvisa e médico formado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro pode vacinar 3 milhões de pessoas por dia, 60 milhões por mês considerando apenas os dias úteis.

O Brasil tem atualmente pouco mais de 200 milhões de habitantes. Houvesse vacina suficiente, em três meses poderíamos imunizar 180 milhões de pessoas, o que praticamente daria fim à pandemia da covid em nosso País.

Como se sabe, desde o final de 2020 o governo brasileiro tem recebido propostas de aquisição de vacinas. Todavia, até o presente momento, não conseguimos sequer ter acesso a um fluxo regular de imunizantes e as quantidades efetivamente entregues estão sempre aquém do que é anunciado.

Essa dificuldade em assegurar o acesso à vacina levou o nosso País a um recorde de quase meio milhão de mortes.

Por que isso aconteceu? O que deu errado? Como consertar esse dano?

Seria uma iniquidade não colocar em pratos limpos a razão pela qual chegamos a esse trágico resultado. É o mínimo que podemos fazer. É um direito do povo brasileiro saber, pelo menos, qual a causa de tanto sofrimento.

O instrumento certo para apurar o que está por trás dessa tragédia é, institucionalmente, uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a conhecida CPI, constitucionalmente soberana para realizar essa investigação, não importa quão alto, na hierarquia dos poderes decisórios, tenha de chegar.

Esse é o caminho que estamos seguindo com a instalação da CPI da Covid. Sua transcendência foi ressaltada pelo senador Tasso Jereissati: "Esta é a CPI mais importante do Congresso Nacional, porque não estamos falando de corrupção, mas de vidas".

Tenho alguma experiência acerca do funcionamento dessas comissões, tendo participado como vice-presidente da CPI do BNDES quando exercia o meu mandato de deputado federal. Naquela época, durante o curso da investigação - como já tive a oportunidade de relatar em artigo anterior - ficou patente que parte da bancada, que formava a maioria da CPI, não tinha interesse em aprofundar o inquérito, postergando decisões, desviando as discussões para temas irrelevantes, entre outras manobras.

O resultado foi um relatório final inócuo, que passava ao largo do que de fato parecia transcorrer na instituição. Para deixar clara a nossa inconformidade com esse desfecho, o grupo de deputados que não concordava com as conclusões oficiais fez um relatório alternativo, que servia como forma de protesto, uma vez que não era validado pela maioria dos membros da Comissão.

No caso da CPI da Covid o embate não é diferente. Temos, como sempre, três grupos: um que procura evitar o aprofundamento da investigação, outro que milita contrariamente e, finalmente, um terceiro, que se declara independente.

No calor do debate, perde-se muitas vezes a percepção do que de fato é importante: não interessa a ninguém promover uma caça às bruxas. O que queremos é evitar a continuação desses erros, ver quais mudanças devem ser feitas para isso e encontrar soluções.

Meu dever, conhecendo o Congresso e sabendo o que, no fundo, move a maioria dos parlamentares, é fazer aqui um alerta: somente iremos receber as respostas verdadeiras, ter soluções de fato, se cada um de nós, que sofremos a dor dessas perdas, cobrarmos, atentamente, de todas as maneiras, esse resultado.

Meu apelo ao leitor é que participe ativamente. Que se torne um agente mobilizador nas redes sociais - o instrumento que está à mão -, difundido informações importantes, utilizando os dados fornecidos pelo professor Gonzalo Vecina Neto, mencionado no primeiro parágrafo deste artigo, mas que não custa repetir aqui: o SUS pode vacinar 3 milhões de pessoas por dia, 60 milhões por mês excluindo os fins de semana. O Brasil tem atualmente pouco mais de 200 milhões de habitantes. Em três meses poderia vacinar 180 milhões de brasileiros e dar fim à pandemia em nosso País.

O que fazer para consertar esse dano?

Centenas de milhares de brasileiros mortos, milhões de famílias brasileiras perdidas em seu sofrimento exigem uma resposta.

MIGUEL HADDAD

é ex-deputado-federal


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