Opinião

O silêncio continua

A oferta de oportunidades continua sendo negada à população negra


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ARTICULISTA EGINALDO ONÓRIO
Crédito: .

Neste mês de maio, tal e qual todos os demais, os comentários e eventos se repetem por todos os lados a respeito da abolição da escravidão aos 13 de maio de 1888.

Estamos há 133 da tal oferta da libertação, todavia seus reflexos permanecem muito fortes em nosso meio e os dados recentes confirmam desde a suspensão do censo demográfico que permitirá não apenas saber quantos são os brasileiros, mas como vivem e sobrevivem em todas as classes sociais de "a" a "e", muito embora tenhamos elementos informativos robustos apontando que a desigualdade aumentou consideravelmente.

Dias atrás estávamos em uma reunião tratando de questões de acessibilidade em sentido amplo oferecido à sociedade, a conclusão a que chegamos é que há estreita relação com a situação pós-abolição, na medida em que a oferta de oportunidades continua sendo negada à população negra, tratamento inadequado à saúde continua excludente desde a entrega de saneamento básico a exames clínicos de rotina e, atualmente, aos acometidos pela pandemia, apesar de muitos da classe "a" passarem por essa triste experiência.

Vale apontar também que, apesar dos avanços, ainda que a passos lentos, a microagressão foi implantada há séculos, contaminando negativamente a autoestima, tais como encontrados nas expressões: "Lista negra, mercado negro, câmbio negro, mancha negra" etc", lembrando que tais expressões podem muito bem ser substituídas por outras sem qualquer alusão à palavra "negro" que identifica o valoroso segmento da sociedade, tanto que a palavra, em consenso, significa consciência, luta, resistência e plenamente aceito no segmento, tanto que encontramos: "Conselho da Comunidade Negra"; "Cadernos Negros"; Movimento Negro Unificado"; "Frente Negra Brasileira"; "Movimento Negro"; " Consciência Negra" e tantos outros.

Para tentar amenizar criaram a tal definição "parda", com a ideia de que a palavra aliviaria a definição encontrada nos antigos dicionários, constando, em seus cognatos, como "macambuzio", "horrendo", "asqueroso", "adverso", "inimigo" e afins, razão pela qual sobreveio a tal pardacidade, mulaticidade com a tentativa de aliviar o peso apresentado pela palavras.

Nos dias atuais, após ofensas ou "deslizes" preconceituosos encontramos com frequência as seguintes frases: "foi um mal entendido"; "não foi o que eu quis diz dizer"; "meus melhores amigos são negros", "minhas desculpas"; " apesar disso você é uma pessoa boa"; "Você é negra mas é bonita"; "Nossa mas você é inteligente"; "somos todos iguais, a raça é humana"; e por aí vai.

Tenho notado também, com certa frequência, o distanciamento de muitas pessoas em postos de mando e importantes, muito ... muito longe dessa realidade, que, ao tomarem conhecimento de fatos dessa natureza, invariavelmente, ficam estarrecidas, a exemplo do que mencionei na matéria anterior, na qual trouxe a lume o ocorrido em um hospital universitário de alto conceito, tratando de modo inaceitável as gestantes negras e, de mesma forma, o trato às pessoas negras pelas autoridades policiais e judiciárias. É mesmo estarrecedor que muitos "poderosos" sabem e estrategicamente se mantêm em silêncio.

Nessa mesma esteira, o ambiente escolar, lamentavelmente, não se move no sentido de ensinar e provar a verdade, visando demonstrar que a população negra é detentora de grandes feitos e que conta com grande número de pessoas tão talentosas quanto. Já passou da hora de extirpar completamente tais posturas, haja vista o volume de material suficiente a comprovar a igualdade enquanto seres humanos, diferenciados apenas e tão somente pela quantidade de melanina.

Todos esses fatos só serão eliminados a partir do acesso de integrantes da comunidade negra nos postos de mando e a partir da divulgação dos bons exemplos que produzem, pois, como se sabe, crescemos através de exemplos, ao divulgar os bons exemplos e que somos iguais, mas diferentes apenas na cor da pele, toda essa maldade não encontrará ressonância.

"Nossa geração não lamenta tanto os crimes perversos quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos" (M.L.King)

EGINALDO HONÓRIO é advogado


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