Opinião

"Folhas são células fotovoltaicas!"

Arquiteto é o que faz a transformação da natureza em cidade


divulgação
EDUARDO PEREIRA ARQUITETO
Crédito: divulgação

Após mais de 80 anos de reivindicação, a conquista da categoria dos arquitetos e urbanistas fora reconhecida em 2011, com a criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil - CAU. A plenária de instalação teve como orador principal nosso mais representativo arquiteto, Paulo Mendes da Rocha, que discursou provocando nossa cabeça com frases que são instigantes e nos responsabilizam, tal qual "arquiteto é o que faz a transformação da natureza em cidade" e ainda "Engenheiros! As folhas são células fotovoltaicas", ressaltando as fontes naturais de energia que considerava o maior valor que temos nos trópicos.

Mendes da Rocha tem, em sua obra, um traço elegante, apurado e único, como sua marca na cidade. Sua última obra foi o Sesc 24 de maio, no centro paulistano, uma ilha sobre um edifício antigo. O térreo é uma praça em continuidade ao espaço público, a piscina é deslocada para o topo do edifício, como uma praia no mais efervescente lugar da metrópole. O MuBE - Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia, que é uma arquitetura que você não vê, mas que traz a ideia de uma grande praça aberta para a cidade, para a América e para o mundo. O corte, cessão do projeto (tal qual a fatia de um bolo, onde se vê entre camadas e recheios), revela o apuro e genialidade do arquiteto. A discrição e a surpresa são apresentadas aí, um espaço que não tinha térreo nem subterrâneo, mas tinha as esculturas e as exposições as quais entrávamos naturalmente e percorríamos espaços contidos, mas amplos para fruirmos.

As descrições de suas obras são especiais porque são únicas, e renderam o prêmio máximo que um arquiteto pode receber como reconhecimento do seu trabalho no mundo, o Pritzker de Arquitetura de 2006. Guilherme Wisnik, crítico de arquitetura, foi seu aluno nos anos 2000 na FAU-USP, e assim fala sobre o modo de Paulo agir em suas classes, ressaltando a sua proeminente retórica. "Ele era um professor muito eletrizante, todos queriam ouvi-lo falar, formavam multidões. Falava da ida a lua, colonialismo, América, assuntos obliquamente arquitetônicos para que colocassem os alunos num estado de crise com a existência e criação, tal qual é a arquitetura."

Reflexões, provocações eram uma constante, fazia parte de sua postura e passava isso para todos os arquitetos, essa inquietação e inconformismo nos contaminava. Wisnik lembra que "Diante de um projeto uma crise, de um inconformismo, com a segregação, violência, transformação da arquitetura em objeto de consumo, superficialidade do tratamento das coisas."

Fica claro que Mendes da Rocha sempre relacionava a arquitetura como invenção de formas de vida, como explosão do edifício em direção à cidade, uma cidade para todos. A arquitetura por séculos teve a função de impor e de tornar o homem pequeno diante da grandeza de uma obra, mas sua arquitetura em atitude oposta fez espaços de acolher, abrigar e até de, humildemente, trazer a grandiosidade para uma praça limpa, como fez no MuBE, com a ideia de comunicação com a cidade e a América com apenas um monólito pousado sobre ela. Na praça para as esculturas públicas e sob a praça, as exposições.

Em outro projeto icônico, reestrutura o edifício para a Pinacoteca de São Paulo. Sua entrada monumental do prédio de Ramos De Azevedo de 1930, outro que ele transformou o espaço marcado pelo neoclássico num imenso museu moderno cuja entrada não é mais aquela original, que produzia impacto no visitante com as escadarias a grandiosidade do lustre e colunas neoclássicas numa ode às belas artes. Ousado, Paulo deslocou, para a lateral, o novo acesso para recuperar a escala das pessoas que entram para o antigo, e se deparam com impactantes intervenções contemporâneas.

O museu mais popular, o da Língua Portuguesa, com milhares de frequentadores e visitantes que consagram ali a língua, a cultura e a cara brasileira num espaço que leva o visitante a aprender o que é a cultura de um povo, e o faz sair de lá muito diferente de como entrou e faz crescer o apreço pela identidade popular que ali é fortemente valorizada. A língua portuguesa está, também, de luto.

Como afirmava a morte e a frutificação da vida Paulo Archias Mendes da Rocha nos deixou em 23 de maio. Sua perda foi tamanha que teve repercussão em todos os locais do mundo, com matérias longas e reflexões raras sobre seu trabalho e pessoa. Dias depois, o Google registrava o inacreditável número de 33.000.000 de manifestações, uma enxurrada de reflexões nunca tão potente sobre arquitetura e sua memória.

EDUARDO CARLOS PEREIRA
é arquiteto e urbanista


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