Opinião

Duro na queda

Incrível a capacidade humana de se adaptar às circunstâncias


divulgação
HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Nunca fraturei nada, ou nenhum osso meu, enquanto criança. Já com 30 anos, num dia chuvoso, ao carregar um filho, o José Renato, para o carro escorreguei no último degrau da casa de meus pais. Senti que ia cair e procurei defender a criança, lançando o braço direito rumo ao solo. Ouvi um estalido e pensei que fosse o guarda-chuva a quebrar. Só que era meu braço. Fratura em quatro lugares. Quando vi o osso a perfurar a pele, só então senti dor.

Fui imediatamente para o hospital e tive de me submeter a uma cirurgia para redução das fraturas. Meu cirurgião e amigo, José Carlos Bongiovanni, esmerou-se na reconstituição do meu braço direito. Houve necessidade de utilização de placas metálicas, em número de oito, cada uma com cinco parafusos. Contou-me Bongiovanni depois, que se servira de material cirúrgico de seu consultório. Tudo de origem da indústria suíça. O único parafuso nacional foi o que deu problema. Quebrou várias vezes.

Rotina alterada para inúmeras seções de fisioterapia. Turbilhão de água com temperaturas diferentes, vários exercícios. Todas as minhas funções foram preservadas. Consegui continuar digitando com desenvoltura.

Quase dez anos depois, chegando a Paris, numa tarde ensolarada, quis aproveitar a Cidade Luz. Tomei um banho e, ao deixar o box, escorreguei e bati com o calcanhar esquerdo na proteção metálica. Embora a dor fosse forte, pensei que conseguiria caminhar. Não cheguei percorrer um só quarteirão. Vi que a lesão não era leve.

Munido de voucher, recorri ao sistema de saúde parisiense. Os médicos estavam entretidos num jogo de futebol. Riram quando constataram fratura de calcâneo. Disseram que fazia tempo não encontravam quadro semelhante, mais próprio aos paraquedistas quando tentavam paralisar o avião em queda. Voltei sem curtir Paris, mas em voo de primeira classe. Mais fisioterapia, agora com Paulo Bresciani.

Muitos anos depois, em visita à comarca de Presidente Prudente, saí de madrugada, deixando meus amigos da segurança a dormir. Caminhava tranquilamente, quando um cachorro começou a me seguir. Quis brincar com ele e tropecei, voltando ao solo e rompendo a clavícula.

Novas sessões de fisioterapia. Apelidei-me presidente imprudente. Fora eleito por meus pares para responder pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

Quando visitava Moscou, anos depois, ao procurar abrir compressa a porta do meu quarto, um banco interpôs-se no caminho. Fraturei o dedo mínimo da mão esquerda. Nova cirurgia, fisioterapia, muita dor e sacrifício. E ele, o mindinho, nunca mais voltou a ser o que era

Pensei que a epopeia das fraturas estava encerrada para mim. Ledo engano. Segunda-feira, 16 de maio, pus-me a caminhar com minha irmã Jane Rute pelos jardins. Já estávamos voltando quando ferragens utilizadas para concretagem, sem qualquer aviso ou faixa impeditiva, lançaram-me novamente ao chão. Desta vez a dor foi bem forte. Vi que o braço esquerdo estava fraturado. Fomos imediatamente para o Osvaldo Cruz e soubemos que haveria necessidade de cirurgia.

O cirurgião, Marcelo Tavares de Oliveira, apavorou-me. Disse que um nervo estava esfacelado e que talvez eu não tivesse mais mobilidade no braço afetado. O médico plantonista me garantiu que ele era o melhor cirurgião de mãos da equipe do hospital alemão. Mais uma cirurgia. Dor e receio: afinal, já não tenho 30 anos.

Quando acordei, havia uma fileira enorme de marcas de recém-operados. Ficamos conversando sobre nossas cirurgias e expectativas. Ao me dar alta, o doutor Marcelo disse que havia encontrado o pedaço de osso desaparecido e que fora moído para a tentativa de recomposição do meu membro sinistro. Contei a ele que fugira de Bongiovanni todas as vezes em que acenara com a necessidade de remoção das placas metálicas. Até que um dia, há pouco tempo, perguntei a ele se ainda seria preciso abrir meu braço para livrá-lo dos metais. Respondeu que agora eu teria poucos anos pela frente e já não se mostrava conveniente nova cirurgia.

Estou agora biônico, tentando ditar este artigo, sem utilizar meus ágeis dedos, garantidores de uma prolífica produção. Incrível a capacidade humana de se adaptar às circunstâncias. Embora lamente a indesejável ocorrência, sou grato a Deus por poupar-me a vida e este resíduo de inteligência.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


Notícias relevantes: