Opinião

A privacidade está morta

Quem tem informação tem poder, certo?


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A vida privada morreu. Ou, a ideia coletiva de privacidade é apenas uma ilusão. E isso se deu numa noite de outono em uma quarta-feira de 1980 em que, em um programa de TV norte-americano com audiência para cerca de 6 milhões de pessoas, uma moça chamada Vivianne contou que nunca havia tido um orgasmo na vida porque seu marido sofria de ejaculação precoce. Segundo Zygmunt Bauman, foi o início da revolução pós-moderna.

A fala de Vivienne é revolucionária porque ela coloca no centro sociedade uma informação que não faz parte do interesse público, mas que, a partir dali passaria a ter. Ou pelo menos, descobriríamos que a intimidade alheia causa o nosso interesse. A linha entre público e privado passaria a ser extremamente tênue.

O filósofo contemporâneo, Pierre Levy, diz que dentro da internet fomos, pela primeira vez, convidados a produzir. Antes dela vivíamos em uma espécie de cultura da leitura. Isso significa que éramos receptores passivos sem a menor possibilidade de devolver nossas impressões. Éramos meros espectadores dos sons e das imagens que nos chegavam e, caso não concordássemos, problema nosso.

Quando o Facebook te pergunta "o que você está pensando", ele está te convidado a dizer o que você pensa sobre o que você consumiu. Somos incentivados a produzir a todo instante nas redes: opiniões no Facebook, fotos no Instagram, notícias no Twitter, vídeos no YouTube… Nós produzimos e alimentamos a internet com informações e ela precisa dessas informações para sobreviver. Das nossas informações!

A informação, de modo geral, tem muito valor e não é de hoje. Mas não era toda informação. Na era moderna, eram apenas aquelas que faziam certa diferença na coletividade e promoviam avanços progressistas na sociedade. E quem dizia qual informação tinha mais valor que a outra? Os acadêmicos. Basta ler enciclopédias do século 20 e verá uma série de coisas e não verá outras.

Você nunca veria a história da Vivienne em uma enciclopédia. Mas na pós-modernidade, a história dela ganhou valor. E por quê? Simples. Quem tem informação tem poder, certo? Essa lógica também ganhou força na cibercultura, mas de um modo um pouco mais… digamos… democrático. Na cibercultura não basta ter informação, você precisa produzir informação. Bom, e que tipo de informação nós produzimos? Isso mesmo, informações sobre nós mesmos.

Quando a Vivienne contou sobre sua desventura sexual, ela ganhou atenção e essa atenção incentivou outras pessoas a também quererem atenção. Então passamos a expor nossa própria intimidade em troca de atenção, que é simbolizada pelos likes, views, seguidores e compartilhamentos. Quanto mais atenção, mais poderosa é a informação e mais poderoso se torna o seu portador.

Na internet a informação que tem valor hoje não é aquela que está consagrada em uma enciclopédia - tanto porque elas nem existem mais -, mas sim a informação que tem o máximo de atenção possível. Já se perguntou como o Whindersson Nunes ficou famoso? Ele oferecia informações sobre sua vida expondo, muita vezes, seus medos, desejos e intimidades da sua relação com amigos e familiares. Claro, de uma maneira particularmente engraçada.

E já parou para pensar que você quer exatamente o mesmo e usando uma tática muito similar? Dê uma olhada nas suas redes sociais e veja o quanto você fala sobre sua própria intimidade, posta fotos de momentos particulares, revela situações e desejos que antes jamais ganhariam publicidade. Tudo isso porque você entendeu a lógica do ciberespaço: para ter poder é preciso criar informações e como você só consegue criar informação sobre você, ela precisa ser interessante o suficiente para ganhar a atenção. Por isso apelamos para expor nossa vida privada em troca de likes.

E as grandes corporações da web adoram isso. Pois você oferece de bom grado informações particulares muito valiosas para elas e tudo isso vira um valioso banco de dados sobre você. Me arrisco a dizer que o Facebook te conhece melhor do que você mesmo. Mas esse é um papo para outro texto, me cobre.

A privacidade morreu e fomos nós quem a matamos.

Conhecimento é conquista!

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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