Opinião

Triste espetáculo de alienação

As ditaduras podem contar com sólido apoio popular


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Quando Josef Stalin morreu, em março de 1953, alguns dos melhores cineastas e cinegrafistas da União Soviética foram convocados para filmar seu funeral. Além de um dia inteiro para a exposição do corpo aos visitantes, em um prédio público de Moscou, foram registradas a procissão e a entrada ao mausoléu, além da reação de outras pessoas em outros pontos da chamada Cortina de Ferro.

Nem todas as imagens foram feitas no dia do funeral. Algumas, apenas meses depois. Por motivos nunca explicados, essas imagens foram proibidas de circular. Ficaram retidas nos arquivos soviéticos até 1988 e, por outro motivo difícil de compreender, não saíram dali até alguns anos atrás, quando o diretor Sergei Loznitsa decidiu ressuscitá-las.

Agora elas podem ser vistas em "Funeral de Estado", em cartaz no Mubi, ao qual Loznitsa não leva a opinião de historiadores e especialistas, recurso comum a tantos documentários de canais a cabo. Às imagens ele acrescenta a naturalização pelo som.

Ouvimos a cidade, seus ruídos, seus carros, os passantes. A restauração da película em preto e branco e em cores torna tudo mais vivo e palpável. O realismo é gritante.

À primeira vista, nada gera impacto. Não há conflito, mas apenas o registro de um dia de luto para boa parte dos cidadãos soviéticos. Aos poucos, contudo, o ritual cresce: a morte do líder, percebemos, é mais uma arma a reforçar as bandeiras do regime ditatorial e do partido comunista. Em qualquer cidade a narração é a mesma, a rádio é a mesma.

As imagens são repetidas, multiplicadas, os discursos também. Na capa de todos os jornais, a foto de Stalin é a mesma. É provável que o texto seja o mesmo. Só mudam os nomes dos periódicos. Nas ruas, estampadas em cada prédio, a mesma foto não deixa que ninguém desvie os olhos desse grande irmão que nos remete, claro, às teletelas da obra distópica de George Orwell, "1984", inspirada, por sinal, no stalinismo.

O caixão de Stalin é vermelho. Seu corpo morto preserva a mesma expressão dura, a mesma farda. Ao lado, militares armados ocupam-se de sua proteção e, a poucos metros, diferentes artistas pintam telas e moldam em argila o semblante do facínora. À frente, em fila interminável, o povo aglomera-se para se despedir. Boa parte chora sem parar.

Ainda que todos os enquadramentos tenham sido calculados de antemão, não se tratam de imagens para distorcer ou engrandecer Stalin. O sistema por si só se encarrega do feito. O povo, aquele que saiu à rua, em meio ao frio, para dar adeus ao grande irmão, é a cereja do bolo desse espetáculo fúnebre, massa bovina que reproduz - no olhar de cada criança, no desespero de cada mulher - os perigos do culto à personalidade.

A voz do narrador corre pelos alto-falantes das cidades nas mais de 24 horas condensadas em duas de documentário. Afirma que Stalin seguirá vivo no sangue de todos, suas glórias na guerra contra os nazistas, na liberdade que garantiu àquela gente simples. Todo o mal é naturalizado.

Curioso notar que, hoje como antes, os autoritários agem com mão de ferro sob a lorota da busca pela liberdade, quando querem o exato oposto.

O mito soviético, com um mar de gente a referenciá-lo, ajuda-nos a refletir sobre outra questão: as ditaduras podem contar com sólido apoio popular. Não é incomum. As lágrimas derramadas não são gratuitas nem forjadas. O povo identifica-se com o militar que permaneceu no poder até a morte e, segundo o radialista, para viver em todos.

Hitler chegou ao poder pelo voto. Os alemães estavam desacreditados nos anos 1920 e início dos 1930. Saíram de uma guerra mundial humilhados, a economia estava quebrada.

A História tomou outro rumo quando um tal Adolf, que gostava de discursar sobre a superioridade ariana em cervejarias de Munique, ganhou atenção e chegou a chanceler do Reich. Matou alguns milhões de judeus. Era considerado mito por parte significativa de seu povo - a exemplo do bigodudo Stalin.

Ao fim de "Funeral de Estado", Loznitsa lembra-nos de alguns dados assustadores da União Soviética sob seus poderes: 27 milhões de cidadãos assassinados, executados e torturados até a morte, presos, enviados para o Gulag ou deportados. Aproximadamente outros 15 milhões morreram de fome. Uma marca macabra que supera inclusive a de Hitler.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista. Escreve em palavrasdecinema.com


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