Opinião

Uma vida é muito pouco

Aprendei então que trabalho e alegria podiam conviver


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Uma vida é muito pouco tempo se pensarmos em termos de gratidão. Quantas foram as pessoas que nos ajudaram nesta caminhada? Somos devedores de nossa família. O primeiro núcleo que se preocupou conosco. Sabemos reconhecer o que foram nossos pais, avós, tios, primos, demais familiares e até vizinhos e conhecidos?

A gratidão é uma virtude negligenciada. Muitos de nós pensamos que somos merecedores das atenções com que fomos privilegiados. Há uma teoria que atribui algo de perverso a gratidão. É o que levaria o ingrato a não aceitar sua fragilidade quando foi alvo de uma ação benevolente. Atribui-se à Napoleão haver estranhado quando, no exílio, soube que alguém tecera comentários desairosos a seu respeito e comentou: "Não me lembro de ter feito qualquer benefício a essa pessoa!". Isso porque já experimentaram o fel da ingratidão inúmeras vezes. Sinal da miséria humana. Não foram dez os cegos que voltaram a enxergar no milagre de Cristo? Quantos se dispuseram a agradecer? O Evangelho faz referência a apenas um.

Faz bem à consciência revisitar etapas de nosso percurso terreno para contemplar, com olhar grato e carinhoso, aqueles vultos que se preocuparam conosco um dia. Tempos pandêmicos são propícios a esse exercício. Sei que nunca vou esgotar a galeria daqueles generosos e solidários exemplares humanos que me estenderam a mão. Mas não deixo de incluí-los em minhas mínimas preces, neste momento em que a oração afasta a angústia e o desalento.

Vejo, por exemplo, minhas catequistas de São Bento, dona Zeca e dona Lica, pacientes a fazerem crianças de 6 anos repetirem: "Deus é um espírito perfeitíssimo, eterno criador do céu e da Terra". Ouço Monsenhor Arthur Ricci, ao final da confissão, dizer: "Manda um abraço para a Ditinha!". Minha mãe fora empenhada integrante da JOC, a Juventude Operária Católica da Matriz de Nossa Senhora do Desterro.

Muito devo às irmãs vicentinas da Escola Paroquial Francisco Telles: minhas mestras irmã Octávia, Susana, Úrsula, Verona e Zélia foram influências decisivas e permanentes. Na diretoria, irmã São Luís e irmã Flórida pontificavam.

No Ginásio e depois Colégio Divino Salvador mereci o devotamento do Padre Paulo de Sá Gurgel, incansável diretor, mantenedor e alma da educação salvatoriana em Jundiaí. Ao lado do padre Ângelo Zanella, padre Gervásio, padre Miguel Schllerdon, padre Dietmar Graeter, padre Mário Teixeira Gurgel, depois bispo de Itabira em Minas Gerais, padre Canisio, padre Gabriel Contini e frater Arnaldo e frater Aurélio, foram responsáveis pelo meu interesse pela leitura, pela história, pela redação. Tudo aquilo que se mostrou essencial para a carreira que abracei.

Os professores leigos também foram importantes. Durval Fornari, que nos ensinou canto orfeônico, Wilson Minzon, química e desenho, Daniel Hehl Cardoso, educação física.

Papel importante na minha vida exerceu dona Vitória Furlan de Souza, que me fez assumir uma função no almoxarifado do hospital do Sesi, para substituir Rosa Rossi, afastada por gravidez. Aprendi então que trabalho e alegria podiam conviver.

Não posso me esquecer do meu ingresso no jornalismo de nossa Terra. Fui ao "O jundiaiense", para levar a notícia do jubileu Áureo de meu tio, monsenhor Venerando Nalini em 1961. O redator-chefe do Jornal dos "3 Fernandos", Pedreira, Gasparian e Henrique Cardoso, encarregou-me de redigi-la. Satisfeito com o teste, convidou-me a integrar a equipe de colaboradores. Nunca mais deixei de escrever em jornal.

Passei pela Folha do padre Adalberto de Paula Nunes, pelo Diário de Jundiaí de Paulo Marques, pela Tribuna de Jundiaí de Antônio Carlos Avallone e, desde 1965, estou na família do Jornal de Jundiaí, de meu querido e saudoso amigo, o notável Tobias Muzaiel.

Com todos aprendi muito e tenho muitas saudades dos tempos de linotipo, dos clichês em metal, de fechar o jornal de madrugada, cumprida a missão de escolher a manchete que surpreenderia os leitores na manhã seguinte.

Quantos nomes, quantas personalidades, quantos perfis contribuíram para que pudéssemos nutrir a noção possível do que significa conviver em sociedade. A todos, minha perpétua gratidão.

JOSÉ RENATO NALINI

é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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