Opinião

Lins, Martins & belezas ilimitadas

"Abre alas pra minha folia/Já está chegando a hora..."


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

"Os dias eram assim", responde amigo querido. Ele, submetido a uma dramática situação pessoal, resume o enredo de seus últimos meses com o verso da canção "Aos nossos filhos", de Ivan Lins e Vítor Martins. Lembro desses compositores, dentre tantos no país, capazes de externar dores, alegrias, anseios e sentimentos. De fazerem o particular tornar-se geral. Capacidade que a arte e os artistas carregam consigo.

O paulista de Ituverava Vítor Martins conheceu o carioca Ivan Lins na década de 1970. A dica foi dada pelo também compositor e violonista Baden Powell, de que Martins precisava estabelecer parceria com jovens, "gente da sua idade". Era o caso: Vítor nasceu em novembro de 1944, e Ivan, em junho de 1945. A primeira canção assinada pela dupla apareceu em 1971, "Abre alas" ("Abre alas pra minha folia/Já está chegando a hora..."). A parceria responde por 107 canções (ainda contando, pois ambos continuam na ativa).

O engenheiro químico Ivan Guimarães Lins graduou-se em 1969 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas seu caminho foi o da música. Em 1968, destacara-se no Festival da Canção Universitária, da TV Tupi. Em 1970, "Madalena", na voz de Elis Regina, estourou como sucesso nacional. Seus parceiros de então eram Waldemar Correia, o Dema, e Ronaldo Monteiro de Sousa. Com o último, lançou em 1970 "O amor é o meu país", cujos versos de exaltação ao Brasil foram patrulhados como apologia ao regime militar - do qual Ivan Lins não só manteve distância como denunciou em "Desesperar jamais" e a já citada "Aos nossos filhos", ambas com letras de Vítor Martins. Também gravada por Elis Regina, em 1978, em tempos da "abertura lenta, gradual e segura" preconizada pelo governo do general Ernesto Geisel, "Aos nossos filhos" escancarava a desesperança da época - "Perdoem a cara amarrada/perdoem a falta de abraço/perdoem a falta de espaço/Os dias eram assim/Perdoem por tantos perigos/Perdoem a falta de abrigo/Perdoem a falta de amigos/Os dias eram assim (...) -- ainda que embutisse alguma possibilidade de sonho ("E quando passarem a limpo/E quando cortarem os laços/E quando soltarem os cintos/Façam a festa por mim/ E quando lavaram a mágoa/E quando lavarem a alma (...) Lavem os olhos por mim./Quando brotarem as flores (...)/Quando colherem os frutos/Digam o gosto pra mim").

De questões universais - obviamente mais amplas, englobando tantos - a dupla transita para dramas pessoais, íntimos, como o melodramático e definitivo "Bilhete": "Quebrei o teu prato/Tranquei o meu quarto/ Bebi teu licor/ Arrumei a sala/Já fiz tua mala/Pus no corredor/Eu limpei minha vida/Te tirei do meu corpo/Te tirei das entranhas/Fiz um tipo de aborto/E por fim nosso caso acabou/Está morto". A canção, imortalizada na voz de Fafá de Belém, é uma daquelas exemplares da longa lista da dor de cotovelo em nossa música popular. E olha que a seleção da fossa pode escalar Lupicínio Rodrigues, Vinícius de Moraes, Herivelto Martins e Chico Buarque - para resumir um meio campo de craques no assunto. Os últimos versos de "Bilhete" não deixam dúvidas quanto ao fim da história: "Jogue a cópia das chaves/Por debaixo da porta/Que é pra não ter motivos/De pensar numa volta/Fique junto dos seus/Boa sorte, adeus".

Em meio a outros sucessos, comporiam o arrasa-quarteirão "Começar de novo", gravado por Simone ("Começar de novo/E contar comigo/Vai valer a pena/Ter amanhecido..."). Tema do seriado "Malu mulher", de enorme audiência na TV brasileira entre 1979 e 1980, a música virou hino para mulheres que conquistavam espaço diante de um secular e onipresente machismo. Ou a eterna e apaixonada "Lembra de mim" ("Lembra de mim/Dos beijos que escrevi/Nos muros a giz/Os mais bonitos continuam por lá/Documentando que alguém foi feliz").

Em 1991, os parceiros e o produtor Paulinho Albuquerque fundaram a gravadora "Velas", para revelar novos talentos. Na sua lista de achados, contam-se Chico César, Lenine e Guinga.

Canções nos acompanham. Não resolvem nossos menores ou maiores dramas. Mas acalentam. As de Ivan Lins e Vítor Martins estão nesse time.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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