Opinião

Arte e cultura: necessárias e transformadoras

Sou um otimista!


ARQUIVO PESSOAL
MARCELO PERONI
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

Pode soar estranho alguém escrever isso em meio a tantas notícias terríveis, em meio ao luto que vivemos, em meio a tantos seres humanos que parecem ter perdido a humanidade. Sinto muito, e com profundo pesar, por todas as pessoas, pelas vidas perdidas, pelo dor que insiste em ficar aprisionada, pelos comportamentos e atitudes que não compreendo. Mas acredito que as coisas podem ser diferentes. E isso começa se cada um de nós tomarmos uma atitude. Uma de cada vez. Pouco a pouco, passo a passo, sem ignorar etapas.

Não basta esperar, repudiar ou reclamar. Há que agir, temos todos que agir. Ainda que de maneira lenta, com as possibilidades que temos. E assim viveremos melhor. Olhando nos olhos do outro e sorrindo e oportunizando experiências transformadoras. Cada um contribuindo à sua maneira e com aquilo que for possível naquele momento, com o que estiver ao nosso alcance.

Muitas coisas precisam mudar e outras tantas já estão mudando. Eu só posso entender essa mudança e transformação com a cultura e a educação. E aqui defenderei o uso de ferramentas que fazem parte da minha vida. Precisamos da arte! Precisamos da cultura em sua forma mais ampla e abrangente. Precisamos chegar naqueles que já veem na cultura uma ferramenta de transformação e, principalmente, naqueles que ainda não estão convencidos. Precisamos enxergar na ficção, nas experiências artísticas, na música, no teatro, no slam ou no grafitti, uma oportunidade de mudarmos nosso olhar, de abrirmos espaços em nossos corações e de escancararmos portas e janelas trancafiadas.

O momento clama por um novo olhar. Olhar esse que passa por pequenas experiências diárias, como cantar uma canção, contar uma história para a criança mais próxima de você, ou brincar e resgatar brincadeiras esquecidas no fundo das suas memórias.

Sem nos darmos conta, a pandemia veio mostrando de maneira discreta e profunda que a arte tem ajudado a nos salvar, diariamente. Infelizmente, ainda não a todos. Mas muitas e muitas pessoas encontraram na arte, ainda que sem notar, um respiro de alívio em meio à calamidade dos tempos pandêmicos.

Nem todos tiveram ou têm essa oportunidade. Há locais em que até a fantasia hesita em chegar. Há realidades sofridas que mesmo a ficção titubeia, esbarra e não entra. Mas, até em meio a essa dureza surgem raios de esperança, mesmo não havendo um rádio, um livro ou uma tela, quando uma avó canta para um neto, um pai não letrado inventa ou reinventa uma história para sua filha. Nesses momentos a cultura se faz presente e há uma mudança começando.

Os tempos têm sido difíceis, repito, mas me sinto conectado com tantos outros humanos, que com ideais, convicções e vontade de mudança bradam aos quatro ventos que, assim como Nietzsche nos alertou, sem a arte podemos ser destruídos pela realidade.

Sou otimista porque, para além das ideias, vejo concretamente coisas acontecendo. Vivo e participo de uma escuta de crianças que integram um Comitê e que, juntas, olham e propõem mudanças numa cidade; regozijo quando a literatura, durante uma semana inteira, é reverenciada e disponibilizada a todas as pessoas, por meio da Festa Literária de Jundiaí; quando vejo mobilizados grupos e academias de dança, que antes se entendiam concorrentes, celebrando juntos a arte da dança; quando mais de 400 artistas locais, provocados por um chamamento público, se reinventam e criam vídeos para a rede oferecendo o seu melhor; quando encontro centenas de outros e outras otimistas dedicando tempo para participar da construção de um plano de cultura para uma cidade.

Cultura necessita de cultivo.

Muito ainda precisa ser feito, cultivado, mas os passos estão sendo dados e o alicerce está sendo construído, a muitas mãos. Com um alicerce sólido e um solo fértil, tenho convicção de que no futuro poderemos colher ainda mais frutos do que aqueles que já estamos colhendo.

E você? Já cantou com seu filho hoje? Já brincou um pouco? Já sorriu, compartilhou uma foto que te tocou ou publicou uma poesia em suas redes sociais? Vou correr e fazer isso, porque o tempo urge e o momento é agora.

 

Marcelo Peroni é ator, diretor teatral e Gestor de Cultura de Jundiaí


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