Opinião

Lanterna de pirilampos

Durante três anos, se alimentara apenas de arroz, feijão e chuchu


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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE (NOVA)
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O bairro de seus primeiros anos, Colônia, tem história desde o final do século XIX. Foi lá que viveu sua descoberta do mundo, em meio às áreas despovoadas, onde eram possíveis as mais diferentes brincadeiras.

Da primeira escola, não se recorda o nome. Ficava na região acima da Rua Humberto Primo. Cumpria com seus deveres e era disciplinada. Na rua, no entanto "fazia a festa", uma "moleca" como se intitula. Brincava de bolinha de gude, andava de ponta a ponta dentro do córrego e, com as hastes de antenas, assoprava papelzinho em enxame de abelhas para vê-las sair.

No Instituto São Carlos Borromeo, das Irmãs Scalabrianas, preparou-se para a Primeira Eucaristia e aprendeu, em paralelo, crochê e tricô. Confeccionava roupinhas para suas bonecas. À noite - era uma turminha de meninos e meninas -, além de brincar de pega-esconde e passa-anel, procurava vaga-lumes para colocar em vidros e transformá-los em lanterna.

Fafá de Belém canta: "Pirilampo, pirilampo, pirilampo/ Porque brilhas tanto assim/ Deixa a escuridão da noite/ E vem brilhar dentro de mim".

Residiu mais com o pai do que com a mãe. Recorda-se de que sonhava com uma determinada bota branca. A mãe lhe deu, mas, sem ter experimentado na loja, ficou um pouco larga no pé. A troca demoraria. Não teve dúvida: encheu de pedregulhos para poder usar. Resultado: a bota entalou no pé e foi necessário cortá-la. Restou a alegria de ver a caixa e desembrulhá-la.

Os folguedos não foram muito longe pois, aos nove, passou a trabalhar como babá. Poucos anos depois, como doméstica. Trabalhou, ainda, na tecelagem da Argos, na produção da Indústria Latorre, como cuidadora de idosos e no balcão de três padarias.

A vida não era fácil. Durante três anos se alimentara apenas com arroz, feijão e chuchu. Casou-se aos 20. Teve duas filhas lindas, das quais tem o maior orgulho. As três foram atingidas pela morte do marido. Chegou ele para entrega de verduras em uma lanchonete que estava sendo assaltada e foi atingido por um tiro à queima-roupa. Que fatalidade! Somou-se às lembranças de outros medos de violência que ficaram impressos em sua história.

Há 17 anos no Jardim Novo Horizonte, com a morte da mãe, Fátima Aparecida Vioti, 61 anos, viu a Casa da Fonte - CSJ como possibilidade de sair de suas fronteiras, encontrar laços renovados de amizade e aprendizagem. Matriculou-se nos cursos de artesanato.

Segundo ela, foi pegando o jeito da Casa da Fonte. Perguntei-lhe que jeito era esse: cuidar das pessoas, respeitá-las, ajudar as crianças, compartilhar com elas os dons que se carrega.

Queria ficar mais do que apenas no momento das aulas. Ofereceu-se como voluntária nas festividades. O primeiro convite veio para assumir a horta. Aceitou. Procuraria aprender. Chegava no horário do voluntariado e permanecia.

Um tempo depois, da horta, que não era sua preferência, responsabilizou-se pela casa amarela, ao lado da administração do projeto com o almoxarifado e a pequena biblioteca para pesquisa e começou a coordenar o refeitório.

Antes da pandemia, ouviu as crianças e adolescentes sobre o cardápio um dia por semana. Anseia por ele, com o propósito de lhes dar um sabor a pedido quando voltarmos à normalidade. Agora, no refeitório, com outras voluntárias, separa as cestas e prepara os kits de higiene pessoal, limpeza, hortifrúti, brinquedos, guloseimas que são entregues nas famílias cadastradas.

Encontra-se bem no espaço porque acreditam nela e possui liberdade para executar suas ideias. Sente-se feliz em realizar e estar na Casa da Fonte.

Palavras suas: "Depois que a Vó Irene - nossa mãe, voluntária de tapeçaria para as crianças da Casa da Fonte, que partiu em janeiro último com 97 anos - foi ficar com Deus, quis recuperar a reza do terço do Instituto São Carlos e comecei seguir o padre Márcio - cura da Catedral Nossa Senhora do Desterro - e ele, com sua voz e oração, me consolou e me fez querer perseverar no projeto para encher mais o meu coração de paz".

Apesar das dores de sua história - e não foram poucas -, manteve acesa, na alma, sua lanterna de pirilampos.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista


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