Opinião

Revisitando preconceitos

Ainda hoje os indígenas sofrem cruel preconceito por parte do Estado


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

A história é sempre o relato dos vitoriosos. Por isso é que chamamos "descobrimento" a chegada dos portugueses ao Brasil e de "invasão" a chegada de franceses e holandeses. É difícil para essa concepção consolidada desde a infância aceitar que este imenso território já havia sido ocupado, não se sabe quanto tempo antes, por inúmeras nas ações indígenas. Aos poucos, os verdadeiros donos da terra foram considerados pelos forasteiros como seres inferiores, incultos, não civilizados, praticantes de barbáries e indignos de continuar em ocupar seus espaços.

Não causa estranheza, ao menos para a imensa maioria, o verdadeiro genocídio perpetrado contra seres que não destruíram a floresta, não poluíram os rios, mantiveram suas tradições multisseculares e conviviam em perfeita harmonia com a natureza.

Qual a legitimidade para considerar que o indígena não teria direito a permanecer em seus territórios? É ponto pacífico considerar válida a expulsão dos primitivos e originais moradores de solos sobre os quais gerações haviam subsistido de forma espontânea? A visão do dominador prevalece até nossos dias, mais de meio milênio depois de iniciada a colonização. Será que esse relato não admitiria uma revisão?

O livro "Guerras das conquistas", de Felipe Milanez e Fabrício Lyrio Santos, oferece um substancioso quadro, hábil a propiciar ao menos uma serena reflexão. Observam que os índios estavam sendo atacados em seus próprios lares. Verdadeira carnificina, sem qualquer proporcionalidade nos armamentos e treino bélico.

O século 16 possuía algumas vozes dissonantes, que reconheciam aos índios personalidade idêntica a dos brancos. Michel de Montaigne, em seus "Ensaios", é uma delas. Era um admirador da vida indígena. Ainda não havia o conceito de ecologia hoje vigente, mas os nativos eram o testemunho nítido de viabilidade existencial conciliada com a natureza.

Alguns outros poucos europeus pensavam também que não teria sido necessário guerrear contra os habitantes naturais da terra invadida. Nada impediria um convívio harmônico e fraterno, sob inspiração da utopia de Thomas Morus. Sabemos que não foi o que aconteceu. Ainda hoje os indígenas sofrem cruel preconceito por parte do Estado, que continua a considerá-los semi-imputáveis, mas, principalmente, pela cupidez interessada em devastar territórios imprescindíveis à sobrevivência da população residual. Não se tem noção do número de seres humanos sacrificados por uma equívoca e ignorante concepção de raça, cultura e grau civilizatório.

Chega a causar repugnância a incestuosa relação estabelecida entre algumas autoridades e a criminalidade organizada que explora garimpos nas demarcações indígenas. Parece bizarro que se tenha de demarcar áreas destinadas à continuidade da experiência levada a efeito por etnias longevas, que extinguimos antes de com elas poder aprender como se faz para respeitar a mãe Terra. Sob a vertente da ética ambiental, quem são os selvagens, os bárbaros, os ecocidas?

O projeto genoma trouxe prova científica de que não há diferença entre humanos. Todos somos feitos da mesma matéria, embora nos distingamos em virtude da ação da cultura. Tais evidências não lograram o efeito de fazer com que o bicho homem passasse a respeitar outro ser humano que não guardasse identidade com todos os valores cultivados em contextos diversos.

A considerar a frequência como que atentados aos "diferentes" continuam a ser praticados, deforma intensa e acobertada por inadmissível tolerância, e até - não raro - premiada com a impunidade, conclui-se não ter sido completamente exitosa a missão de civilizar os humanos. Antes disso, é urgente "humanizar" os humanos.

Existem nichos de lucidez que podem propagar mensagens suscetíveis de recordar aos que se auto-proclamam cristãos e democratas, que a regra de ouro do cristianismo é "amai-vos uns aos outros" e que, no estado de direito de índole democrática, o meta princípio explicitado pelo constituinte de 1988 é a dignidade da pessoa humana.

Sem absorção desses valores não faz sentido cultivar o ufanismo por projetos de desenvolvimento em sentido estrito, ou seja, exclusivamente material, pois só existe um único e verdadeiro progresso: o progresso moral.

José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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