Opinião

O mais popular dentre os juninos

Parece que não teremos novamente as festas juninas. Uma pena


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Em 2021, parece que não teremos novamente as festas juninas. Uma pena para as crianças de hoje. Na Jundiaí de ontem, todos faziam suas celebrações. Em sítios das famílias, nas escolas, nos quintais. Nos clubes e em torno às paróquias.

Lembro-me bastante das juninas na Chácara Martinasso, que Jacyro oferecia a todo quantos quisessem se reunir, na rua do Retiro. Festas juninas no Divino Salvador, que também era Seminário e, quando abriu ginásio para o público externo, era estabelecimento masculino. Mas festa junina tinha de ter quadrilha. O remédio foi convidar as meninas do São Vicente, o que gerou certo estranhamento das Irmãs Vicentinas.

A essa altura, Padre Paulo de Sá Gurgel, o primeiro e notável diretor da escola salvatoriana foi de motocicleta conversar com a freira. Convenceu-a dizendo: - "Não temos culpa se as meninas de boa família e mais bonitas são alunas vicentinas...".

Eram encontros muito puros, ingênuos e artesanais. As mães faziam seus pratos de predileção e as barracas faziam pequenas rifas ou leilões. Músicas tradicionais, sempre uma sanfona e alguém que "cantava" a quadrilha. Um dos mais animados era Oswaldo Bárbaro, pai de Picoco e Pituca, também festeiro nessa e em todas as outras épocas propícias.

As juninas constituem herança lusa. Os santos Antonio, João e Pedro fornecem suas estampas para os mastros. Tradição antiga nas festas maiores. Fogueira, quentão, pinhão, milho cozido, pé de moleque, bolo de fubá.

Santo Antonio é o mais popular dos três santos. Chamava-se Fernando, era português nascido em Lisboa. Família nobre: Martins de Bulhões e Taveira de Azevedo. Morreu moço, com quarenta anos, em 1231. Seu pai queria fazê-lo cavaleiro. Mas optou pelo sacerdócio. Foi primeiro agostiniano e em seguida franciscano.

Sua vida é repleta de episódios legendários. Pregou aos peixes, quando não quiseram ouvi-lo. Fez um jumento se ajoelhar diante da hóstia consagrada. Era avesso a honrarias, homenagens, rapapés e reverências. Mas era extremamente simpático e culto. Viajou muito. Foi pregar na África e na volta, quase morreu num naufrágio. Foi parar na Sicília. Tornou-se famoso por sua erudição e retórica. Suas pregações convertiam legiões.

Um fato presenciado por centenas de pessoas o marcou como taumaturgo, aquele que faz milagre em vida. Estava num sermão em Montpellier, na França, quando teve uma visão de que seu pai seria condenado à morte em Lisboa. Fora falsamente acusado de desvio de dinheiro do Erário (aquele tempo também existia material para as Lava-jatos da época). Transportou-se milagrosamente de Montpellier a Lisboa e participou do julgamento, demonstrando que seu pai não era o culpado, mas indicando até o local, na residência de outros funcionários da Corte, onde estava o dinheiro da falcatrua.

Os fieis de Montpellier apenas notaram que Frei Antonio pareceu ausente por alguns minutos, interrompendo sua prédica, em seguida retomando-a exatamente no ponto em que se detivera. Daí a expressão "tirar o pai da forca".

Era tão famoso por esse e outros tantos fatos, que menos de um ano após sua morte já foi canonizado.

Sua aura de fazedor de milagres se disseminou pelo mundo. Por que é o santo casamenteiro? Dizem que uma mulher, já não tão jovem, fez uma novena e afirmou que se, ao final dela, não encontrasse marido, atiraria longe a imagem de Santo Antonio. E o fez. Arremessou-a da janela, acertou um jovem que passava pela rua e ele, ao pedir satisfações, apaixonou-se por ela.

Outra coisa que ocorreu nos exércitos brasileiro e português foi a incorporação de Antonio de Pádua (ou de Lisboa?) como soldado e oficial. Com direito a soldo e promoção. Só em 1924, sob Arthur Bernardes, ele foi desligado das Forças Armadas. O Marechal Setembrino de Carvalho despachou: "O coronel Antonio de Pádua vai quase em três séculos de serviço. Nomeie-o general e ponha-o na reserva".

Tudo isso pode ser lido no livro "Santo Antonio", de Edison Veiga, publicado pela editora 34. Também escreveu uma vida de Santo Antonio o Dr. José da Silva Martins, pai do Ives e do João Carlos. Aliás, parentes do santo. Jundiaí tem uma paróquia Santo Antonio e na Catedral um dos altares mais frequentados é o do santinho casamenteiro.

JOSÉ RENATO NALINI

é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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