Opinião

A Copa América no Brasil

O argumento é de que o Brasil possui a melhor estrutura para abrigar a Copa


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SISTEMA PENITENCIARIO FABIO JACYNTHO SORGE
Crédito: divulgação

Desde que foi anunciada, a realização da Copa América no Brasil está cercada de controvérsia. A competição, originalmente, seria disputada no ano passado, porém, foi adiada em razão da pandemia. Já neste ano, Colômbia e Argentina, que seriam as sedes, desistiram de recebê-la.

Em 31 de maio, a Commebol (entidade que organiza o futebol na América do Sul) anunciou que os jogos irão ocorrer no Brasil, sob o argumento de que o país possui a melhor estrutura para abrigar a competição, pois a recebeu em 2019, além de ter sediado a Copa do Mundo de 2014.

Logo após o anúncio, os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Minas Gerais informaram que não iriam receber o torneio. O governador de São Paulo, João Dória, em um primeiro momento, aquiesceu com a realização da competição, desde que obedecidos os critérios sanitários. Todavia, após manifestação dos membros do Centro de Contingência do Coronavírus sobre os efeitos dos jogos, optou por vetar a utilização de estádios paulistas. Por ora, o torneio será realizado nas cidades de Brasília, Goiânia, Cuiabá e Rio de Janeiro. Já o presidente Jair Bolsonaro, em reunião realizada com o Conselho da Commebol, confirmou que o governo do Brasil está pronto para colaborar com a organização do torneio.

Como se todo o imbróglio não fosse suficiente, os jogadores da seleção brasileira, convocados para participar das partidas das eliminatórios para a Copa de 2022, seriam contrários à realização do competição. Por ora, eles estariam guardando silêncio para não atrapalhar a preparação para a partida contra o Paraguai, a ser realizada na noite de hoje. Porém, há expectativa de que após o jogo os jogadores irão divulgar um manifesto contra a realização do torneio no Brasil.

O técnico Tite, na última quinta-feira, em entrevista coletiva na véspera do jogo contra o Equador, embora não tratasse da competição, sinalizou que houve descontentamento do grupo com a realização do torneio, já que não teriam sido informados pela direção da CBF sobre a mudança de sede para o Brasil. Como a comissão técnica apoiou o pleito dos jogadores, o treinador passou a ser alvo das milícias digitais bolsonaristas, que lançaram a hashtag "Fora Tite".

Na noite de domingo, Rogério Caboclo, até então presidente da CBF, foi afastado do cargo por denúncias de assédios sexual e moral a uma funcionária da confederação. Houve a divulgação de mensagens totalmente inapropriadas de Caboclo, que teriam sido gravadas pela vítima. Vale ressaltar que o ex-mandatário nega esses diálogos. Antonio Carlos Nunes, o vice-presidente mais antigo, assumiu interinamente a CBF, pela segunda vez, já havia sido presidente com a saída de Marco Polo Del Nero.

Com o país extremamente polarizado, como o Brasil está, qualquer medida que tenha o apoio do Presidente da República gera enorme divisão e debate. Muitas vezes, totalmente irracional, com ofensas em vez de argumentos. É o que se verifica com a questão da Copa América.

De fato, já temos as disputas das competições ordinárias, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Copa Libertadores da América, Copa Sul-Americana, entre os times e as eliminatórias da Copa do Mundo, entre as seleções. Para muitos, a realização da Copa América seria mais uma, entre diversas outras competições, sem qualquer grande impacto, sendo que os críticos apenas estariam assim agindo por oposição à Jair Bolsonaro.

Ocorre que as copas entre seleções são eventos comemorativos e não recorrentes, a maioria ocorre a cada quatro anos, produzem maior movimentação de pessoas, inclusive de outros países ao local da sede. Não nos parece correto realizar qualquer tipo de celebração com quase 500 mil mortos pela pandemia, bem como com uma média diária de duas mil mortes. A realização do torneio passa uma ideia de normalidade falsa e irreal.

Por fim, temos que a melhor solução é que a Copa América ocorra nos Estados Unidos, país que, por conta da vacinação avançada, já tem diversas competições ocorrendo com a presença de público. O Brasil deveria concentrar todos os seus esforços em vacinar a sua população o quanto antes, para daí poder voltar a sediar competições esportivas. Não estamos em um período de normalidade.

FÁBIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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