Opinião

Peru em eleições: a busca do Pai

Duas ideias não podem se combinar: democracia e dureza


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MARGARETE ARILHA NOVA
Crédito: DIVULGAÇÃO

Mais uma vez um processo eleitoral nos mostra, com todas as letras, de que maneira em cada exercício desse tipo o que está em jogo verdadeiramente. Não há como deixar de lado o fato de que a subjetividade humana para se movimentar busca avidamente um lugar simbólico onde depositar todas as suas expectativas de amparo e de soluções para uma infinidade de temas e problemas.

A História, em todas as partes do mundo, está mais do que repleta de exemplos, de mau exemplos, do que pode ocorrer quando o que se faz é assinar uma carta em branco para que o exercício de um poder, centralizado em uma figura única, venha à tona e se materialize em desmandos e desmantelamentos.

Fora do que se nomeia como democracia, desde os gregos, há poucas chances de haver sucesso. No caso do Brasil, temos observado, com grande preocupação, os passos que o país dá em direção a uma eleição novamente polarizada.

O caso do Peru nos provoca a pensar como seria possível assistir ao que em psicanálise se chamaria o retorno do reprimido. Keiko Fujimori, tranquilamente, postula a ser a portadora do resgate simbólico do pai, um déspota que hoje preso, trabalha para tentar depositar em sua filha a possibilidade de ver-se livre do aprisionamento que por si mesmo, criou.

Keiko fala em Demodura, uma democracia com dureza, que tratará com mãos de ferro aqueles que ousarem não atentar para seu processo de reabilitação do país. Duas ideias que não podem se combinar: democracia com dureza.

Mas, o que teria a falar sobre seu pai? No campo dos direitos sexuais e reprodutivos, Fujimori foi acusado por ter disseminado políticas de esterilização de mulheres indígenas, algo inominável, especialmente depois do Programa de Ação da Conferencia do Cairo ter sido assinado internacionalmente, inclusive com a assinatura do Peru. A partir daí, mais do que claramente, estabeleceu-se que todos têm direito à saúde sexual e reprodutiva, e aos métodos de planejamento familiar para efetivar suas escolhas, e através de sistemas públicos de saúde.

No Brasil, durante as décadas de 70 e 80, a autonomia corporal das mulheres como questão ética, associada ao imperativo do acesso às informações e de novas políticas públicas como dever do Estado, desnudavam um mundo em que era um imperativo ter o direito de decidir sobre si, seu corpo e sua vida. Um direito humano esse de se tornar sujeito de seu desejo.

De alguma maneira, nesse universo, feminismo e psicanálise contracenam no mesmo palco: a aspiração é de favorecer um ambiente externo que alimente escolhas que permitam problematizar amarras, barreiras, ao desenvolvimento de pulsões e opções criativas.

A psicanálise vai mostrar, no entanto, que se o cenário externo com presença de políticas públicas promissoras são fundamentais, ao mesmo tempo não são suficientes para a eliminação das dificuldades das expressões das verdades do sujeito, estabelecidas e por vezes alienadas na e pela linguagem.

Num país que vem tendo um dos piores desempenhos da América Latina no âmbito da epidemia, que lugar restará para sujeitos enfrentarem seu desamparo e possibilidades de resgate de si mesmos e de seu entorno? Que cenários se avizinham? Qual o lugar de reconstrução possível se não for diminuída a expectativa de resolução depositada sobre o lugar do Pai simbólico? Como desfazer ilusões em torno da reconstrução?

Certamente, Pedro Castillo, do mesmo modo que Keiko Fujimori, não terá respostas para um país complexo, e que deseja dar respostas sem reconhecer as enormes diferenças de gênero, raça/etnia, renda, desigualdades e estigmas associados a vida cotidiana.

Se as escolhas são tão difíceis e pouco promissoras num pais acalentado e entristecido pelas mortes, lutos e catástrofes e traumas decorrentes, como ocorre com o Peru, o que faremos nós?

Algo é mais do que correto, a busca das respostas eficazes passam efetivamente por saúde e educação e economia saudáveis. Mas também só acontecerá se a perspectiva de reconstrução nacional estiver pautada na reconstrução de subjetividades.

MARGARETH ARILHA
é psicanalista e pesquisadora do
Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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